as pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos

Em tempos que já lá vão (1850) o Regulamento do Regimento da Rainha determinava que para um mancebo ser oficial de regimento bastava que fosse filho de boas famílias. Ditava ainda que não era condição saber ler e escrever, pois para isso bastavam os escrivães.
De tão profundas eram as raízes que, mais de cem anos depois, ao começar as primeiras marchas na tropa, qualquer magala sabia que de nada valia, ao fim parada, ir queixar-se ao sargento da unidade que as botas eram demasiado apertadas e, por isso, lhe magoavam os calos. Era certo e sabido que o sargento vociferava Calos, sua besta?! Borregos tenho eu e sou sargento. Calos é para oficial!…

A pilhéria serve (e não aperta…) de mote a um velho aforismo, As pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos que pretende encerrar a mesma sentença, ou seja, o mesmo que dizer, por ex. cada macaco no seu galho.
Diz-se que a sua origem vem desta história que muito se contava pelos botequins de Lisboa, na última década do século XIX. Vamos à história:
Chegou-se um pobre ao pé de um indivíduo que parecia asseado, e reparando-lhe para o pescoço, disse:
– Dá-me licença de lhe tirar uma pulga?
O outro deu consentimento, e assim que viu a pulga, meteu a mão na algibeira e deu 5 réis ao pobre, em recompensa.
Um outro pobre, que observou o acontecido, entendeu para si que, se ele dava 5 réis a quem lhe tirava uma pulga, o que não daria a quem lhe achasse um piolho. Aproximou-se também do indivíduo, e disse:
– Dá-me o senhor, licença de lhe tirar um piolho da gola da casaca?
De facto tirou-lhe um piolho, mas o homem não lhe deu nada e até o repeliu.
– Então o senhor dá 5 réis a quem lhe tira uma pulga, e escorraça quem lhe cata um piolho?
– É verdade! Fique você sabendo que as pulgas são dos cães e os piolhos dos fidalgos!
E foi-se andando com ar de quem está bem certo da sua nobreza.
Piolhos, hã!…

 

 

 

(para onde vai o cachorro vão as pulgas)