macho ruço

Calhou que por aqui também viesse a terreiro um tal António Lopes, dos tempos de D. João III, que, desde então, tem andado nas bocas do mundo, com mais ou menos fantasia, sob o nome de… doutor da mula ruça.
É verdade que, nestas coisas das histórias populares (se bem que o físico António Lopes tenha sido uma personagem real e perfeitamente identificada), há sempre motivos de sobejo para que quem conte um conto lhe acrescente mais um ponto...
Um ponto que pode ter, muito bem, um sentido. Como no caso em que, lembra Teófilo Braga, com a história do doutor da mula ruça, o título de doutor passou a ter um duplo sentido: criou-se o apodo, o a-propósito de que doutor também seria o indivíduo pretensioso, a quem os méritos lhe faltassem; sem ser um embusteiro propriamente dito, um vulgar mentiroso, o nosso homem aproveitava-se, todavia, de certas condições favoráveis aos seus propósitos, para se inculcar alguém, no sentido figurado do termo. E foram vários os autores que a isso se referiram. Lembro-me que ainda não há muitos anos, no Minho, quando alguém dirigia motejo fosse lá a quem fosse, logo haveria alguém que remataria com um tire o seu chapéu, ponha a carapuça.
Mas, vem o doutor da mula ruça, aqui, a propósito de uma referência, no Cancioneiro Geral, de Garcia de Rezende, no qual, numas deliciosas oitavas, faz referência, não à mula ruça, mas, ao contrário, a um macho ruço, que pertencia a um tal Luiz Freire, estalajadeiro sovina e de mau feitio. Não seria, pois, sem razões que o macho, às portas da morte, farto das ingratidões do seu dono, proclamasse assim as suas últimas vontades…

Idem me levem d’oferta
dous ou três cestos de palha,
que pois custa nem migalha,
não deve d’haver referta.
Também me levem um alqueire
de farelos ou cevada,
pois na vida Luiz Freire
disto nunca me deu nada.

Perdões pedi
as pousadas, que pousei,
d’alguidares que quebrei

e gamelas que ruí.
E não me devem culpar
de lhe fazer tantos danos,
pois que de palha fartar
nunca me pude em vinte anos.

Sobre a minha sepultura,
depois de ser enterrado,
se ponha este ditado,
por se ver minha ventura:
Aqui jaz o mais leal
macho ruço que nasceu,
aqui jaz quem não comeu
a seu dono um só real.

(ver doutor da mula ruça)

 

 

 

(o asno aguenta a carga, mas não a sobrecarga)