perder a face

Os chineses têm poucos dias festivos, ao longo do ano. E, de facto, pode dizer-se que os únicos que guardam são cinco: os cinco dias que precedem o novo ano. E estes dias são dedicados a todo o tipo de festividades religiosas e pagãs, a par de grande variedade de divertimentos.
Além disso, durante esses dias, observa-se também um muito velho costume que, talvez, aos ocidentais, quando o conheceram (os portugueses, entre os primeiros…), bem lhes tivesse agradado que tal uso se limitasse ao outro lado do mundo!…
Na China, de resto como em qualquer outro lugar, os devedores fazem tudo que lhes é possível para se esquivarem ao pagamento das suas dívidas e, por outro lado, também os credores empregam todos os esforços e artimanhas para que as suas contas sejam saldadas.
Ora, acontece (na China…), que se as contas não foram acertadas até esses últimos dias do ano, então, no derradeiro dia de qualquer familar, os credores aparecem nas casas dos devedores, entram, e sentam-se entre os presentes, sem dizer uma só palavra que seja. E assim permanecem até ao findar o dia. Logo que chegue a meia-noite, o credor levanta-se, cumprimenta os presentes e retira-se, tal como entrou, sem dizer nem mais uma palavra.
E, aí, ai do seu anfitrião, ou de quem lhe mereceu o cumprimento, pois que, segundo os usos, o devedor perdeu a cara (perder a face), isto é, passou a ficar conhecido por caloteiro, desfaçado e um sem-vergonha, a quem doravante ninguém mais fiará um yuan.

Daí que os portugueses, tenham trazido a expressão, adaptado o seu simbolismo ao incumprimento da palavra dada.
Sabiamente, deixaram ficar por lá o uso correcto do costume.
Chinesices…

 

 

 

(quem abona a caloteiro, perde o amigo e perde o dinheiro)

guarda-chuva

A invenção do guarda-chuva (ou chapéu-de-chuva...) ou do guarda-sol, remonta a tempos antiquíssimos e, curiosamente, nos seus primórdios, as pessoas serviam-se dele mais como sinal de dignidade e poder, do que como meio de se resguardarem do sol ou da chuva.
A Tartária, a Pérsia e a China foram os primeiros locais onde se usou; tal como em Marrocos, onde só o Imperador tinha direito de se cobrir com ele. Na Itália, depois em França, começaram a aparecer nos finais do século VII, e é provável que daí os tivéssemos herdado, embora que não haja um absoluto consenso sobre isso, já que são poucas as referências à forma e ao tempo em que eles se foram vulgarizando pela Europa. Sabe-se, isso sim, que os guarda-chuvas, hoje de finos tecidos, antigamente eram fabricados de couro ou oleado.
A propósito de guarda-chuvas, num antigo exemplar do extinto Jornal do Porto, lia-se o seguinte trecho, tão prosaico quanto jocoso:
(…) Em algumas aldeias de Portugal é o guarda-chuva um traste de luxo e de etiqueta, como a casaca e a gravata o são nas cidades.
Nunca algum Romeu de tamancos, acudiu ao prazo dado ao amor, que não levasse um suspiro para saudar a bela e um guarda-sol, de ponteira de latão, para lhe escrever garatujas no chão.
Matrimónio também ninguém o contrai, na maior parte das freguesias do Minho, sem ter um capote forrado de baeta verde e um avantajado guarda-chuva de doze varas. Com esses dois objectos vai o noivo para a igreja, entre os parentes e amigos, preparado para receber a esposa como quem fosse receber uma tempestade (…).
Como quem fosse receber uma tempestade?!
Ora, já vi comparações piores, já!…