matar o tempo


Talvez a única expressão idiomática que ela própria se explica.
Todos demos voltas e mais voltas à volta do Tempo. Sejam elas de tempos a tempos, dos tempos dourados, desses bons tempos, do tempo dos milréis ou da Maria Cachucha. a perder tempo, mesmo que tenha sido em três tempos ou a seu tempo ou nos tempos que já lá vão. Todos irão acabar por matar o tempo depois de perder tempo a dar tempo ao tempo.

Um dia vamos perceber que a função do Tempo é consumir-se sem deixar cinzas.
Singularmente, o argentino Jorge Luís Borges dizia que o Tempo é a substância de que sou feito. Com uma curiosa concepção de dimensão, Vergílio Ferreira escreveu que o tempo que passa não passa depressa; o que passa depressa é o tempo que passou. Andamos, olhamos, apreendemos e, talvez até, cismamos, mas sempre nos escapa a sua forma tangível.
Alguma vez chegar(emos) a tempo de ter tempo para matar o tempo?
No meu tempo, no tempo do rei velho, ou, mais ainda, no tempo dos afonsinhos, chegar a tempo não era só um tempo verbal. Hoje, dando tempo ao tempo, falar disso é perder tempo.

Fique com esta observação, de um autor anónimo, escrita em 1802, publicada no Almanach Universal de Novidades para o anno do Senhor de 1808:

O tempo sem pôr tempo vay correndo
sem tempo não se vão as cousas vendo,
por tempo o tempo vay profetizando.
Do tempo o tempo só pode ir fallando
que o tempo mostra o tempo que vay sendo,
com o tempo vão se os tempos entendendo,
que o tempo vários tempos vay mostrando.
Nunca o tempo perdido he mais cobrado
que se o tempo nos tira o que é presente,
mal pode dar o tempo o que he passado:
o tempo gaste bem todo o prudente
que se o tempo que gasta he bem gastado
todo o tempo passado tem presente.

(ver fazer colheres)

 

 

 

(o tempo te trouxe, o tempo te há-de levar)