nenhum dia sem uma linha

Recentemente, uma figureta pública, a propósito de um dos seus escritos publicados, dizia numa entrevista, publicada num jornal regional, que tinha por hábito escrever um pouco todos os dias. Talvez porque achasse a frase um tanto sensaborona, acrescentou-lhe uma pitada de latim, convencido de que não só a escrita ficava mais composta como, no embalo, acrescentava-se com o latim aos olhos do leitor. E lá sentenciou… nullus dies sine línea!
Há muito quem pensa que se benze e parte o nariz, dizem os mais antigos.
Pois é: crê-se, geralmente, que este aforismo pertence a um qualquer escritor latino, que tivesse por preceito escrever todos os dias, umas poucas linhas que fossem, e recomendasse tal princípio aos que quisessem melhor aproveitar o tempo, com perseverança, na feitura das suas obras.

O fundamento é verdadeiro, a patetice é que a autoria, o meio e a finalidade, essas, estão erradas.
A máxima é de um pintor grego, de nome Apelles, que viveu no século IV a.C., a quem Estrabão considerou o maior e o mais importante. Estrabão refere que Apelles, no seu Tratado de Arte, dizia que nenhum pintor, zeloso da sua reputação e do seu trabalho, deveria deixar passar dia algum sem desenhar.
Linea não é escrever numa linha; é desenhar uma linha.

 

 

 

(ele até sabe como mija a formiga)

cair nos braços de Morfeu

 

Uma sentença errada. Diz-se cair (ou estar) nos braços de Morfeu quando se pretende significar que se adormece profundamente. A verdade é que esta romântica locução induz (mal) a acreditar que Morfeu era o deus do sono, na mitologia grega.
O facto é que Morfeu era o criador, o deus, se assim quisermos, dos… sonhos; Hypnos, seu pai, esse sim é que era o deus do sono.
Duas curiosidades a este propósito: Morfeu, como disse, era o deus dos sonhos, mas apenas dos sonhos bons e tranquilos. Por sua vez, Hypnos (nome de onde deriva hipnose), tinha nove irmãos, um dos quais era seu gémeo: Tânato, deus da morte (nome de onde deriva tanatologia, designação da ciência forense que estuda os mecanismos e aspectos forenses da morte).
Talvez tenha sido a partir desta genealogia que William Shakespeare tenha ido buscar inspiração para escrever que o sono é o prenúncio da morte…

 

 

 

 

(sonhando o cego que via, sonhava o que queria)