uma mão lava a outra

O mais evidente no pressuposto inicial deste postulado é que uma mão… não se lava sozinha.
De onde surge uma apropriada alegoria e incitamento à solidariedade. A ajuda mútua, principio que, entre nós, tão generosos e proveitos resultados deu nas aldeias comunitárias, das quais alguns ainda têm memória de Vilarinho da Furna ou Rio de Onor (Rihonor de Castilla, que é dizer o mesmo).
O modo de alegar o postulado pode ser feito (e foi) mostrado pela face inversa.
Acredita-se que a referência original esteja na obra Satyricon, talvez escrita em meados do séc. I, d.C., por Tito Petrônio Árbitro, mestre da prosa mordaz e crítica aos costumes e política sobre a Roma dos tempos de Nero, ambiência que ele retrata de modo tão zombeteiro como solene para, muitas vezes, resvalar para artifícios retóricos maliciosos e vulgares demais.
É essa trama, tão decadente como violenta, que Frederico Felini (1920-1994) retrata através de um trio de rapazes envoltos numa alucinada paixão (Satyricon, 1969). Seja por Petrôneo ou por Felini, a civilização ocidental sai brutalmente enxovalhada: apesar de vinte séculos os separarem, ambos apontam que a maior falta é justamente a solidariedade.
Amanhã será melhor, há-de sempre dizer o optimista. Talvez por isso, do aforismo, tivesse nascido outro:
Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

 

 

 

(juntam-se seis para ajudar seis e o peso vai parecer de três)