o Arco do Cego

Creio que a maioria das pessoas, quase com certeza, ignora por que se dá este nome a um local da cidade de Lisboa. O que parece ser mais lógico é o que é na verdade: houve ali, efectivamente, um arco, demolido há cerca de duzentos e setenta anos.
Arco do Cego
A razão imediata da sua demolição pode ler-se num dos escritos do Folheto de Lisboa, publicação periódica da capital. Este exemplar a que refiro, datado de Setembro de 1742, dá notícia do derribamento do Arco, embora não explique, naturalmente, que o facto foi apenas um pretexto de uma das partes envolvidas (a nobreza, a despejar vileza entre o clero e o povo) numa guerra antiga, surda, e que, já naquela altura, se adivinhava ir acabar mal. A quezília sobre os enterramentos nas igrejas, já velha, viria depois das guerras liberais, um século mais tarde, a dar origem à Revolução do Minho, mais conhecida pelo nome de Maria da Fonte
Mas, voltando ao Arco do Cego, e à notícia do Folheto de Lisboa. Nestes tempos era comum que os arranjos das ruas ou dos caminhos, só se fizessem quando os soberanos por lá viajassem, assim como só se limpavam nas vésperas e, apenas, nos locais onde passassem as procissões.
Temos, então, todos os ingredientes para a notícia:
“Extremadura – Lisboa, 22 de Setembro.
Terça Feira passada 18 do corrente tomou El Rey Nosso Senhor hum remédio purgativo com bom sucesso, como preparo para os banhos que determina hir tomar ainda neste outono ás Caldas da Rainha, cuja jornada hade fazer por terra, para o que o se vam concertando os caminhos por S. António do Tojal, e Vilas de Ribatejo até Povos. Demoliu-se por isso o grande Arco de Portico chamado do Cego, entre Arroios e Campo Pequeno, para caber o coche que he tam grande que por alguma desta corte custa a virar. Dizem que para a Terça Feira da Semana que vem El Rey irá”.
Outra notícia do mesmo Folheto de Lisboa esclarece que, desta assentada, foram demolidas duas pequenas igrejas e os seus cemitérios…
O Arco do Cego foi-se.
E à silenciosa paz dos mortos começava a apertar-se um nó…
cego!

 

 

 

(quem não enxerga por detrás da vara é cego)

obras de Santa Engrácia

Diz-se de qualquer construção que não avança ou, se se quiser, avança tão vagarosamente que se torna muito difícil prever-lhe a conclusão: são obras de Santa Engrácia.
Esta sentença teve origem nas celebradas obras da Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa (Panteão Nacional), começadas, pela segunda vez, em 1632 e que, em boa verdade, nunca mais tiveram fim. A crença popular atribui esta paralisação a um castigo divino, visto ter sido supliciado, como autor de um sacrílego roubo, um homem inocente.

A história (ou melhor, a lenda) conta assim: Na manhã de 16 de Janeiro de 1630, apareceu arrombado o sacrário da incipiente igreja de Santa Engrácia, tendo o ladrão levado apenas as sagradas partículas, deixando as várias preciosidades de culto (entre elas um busto de prata com a relíquias da santa, que a infanta D. Maria havia oferecido à paróquia), embora todas elas estivessem à sua disposição. A justiça tomou conta do caso, lançaram-se pregões em todos os pontos da cidade, inquiriram-se centenas de pessoas procurando saber o que tinham feito nessa noite. Depressa se tornou suspeito Simão Lopes Sólis, homem de boa condição, mas bulhento e, para sua maior desgraça, cristão-novo. Conta a história que foi encontrado na noite seguinte, nas imediações da igreja de Santa Engrácia; ia a cavalo, mas de cautelas havia entrapado os cascos da montada, a fim de lhe abafar o trote. Não lhe bastaria ser cristão-novo!, Sólis namorava uma freira do convento de Santa Clara, à qual ia ao encontro a desoras.
Ora um dos juízes, o jurisconsulto e poeta Gabriel Pereira de Castro, autor da Ulisseia, requestava a mesma freira e, como o preferido fosse Sólis, aproveitou o ensejo para tirar dali uma estrondosa desforra e vingança. Continua a história dizendo que, estando Sóis no cárcere, recebeu dois melões, um calado e outro inteiro, e um misterioso bilhete junto, com uma lacónica escrita, o calado é o melhor.
Conclui-se, na história, que aquilo não era tanto um conselho, mas antes uma súplica amorosa de uma freira que não se queria ver comprometida. Sólis calou-se, e a sentença foi proferida um ano depois, a 31 de Janeiro de 1631. O réu foi queimado vivo, depois de lhe terem decepado as mãos. Parece que o tal juiz Gabriel Pereira de Castro, de tanto remorso acabou enlouquecido, dizendo que via sempre diante de si o fantasma de Sólis. Morreria poucos meses depois.

Diz ainda a história que, poucos anos mais tarde, um indivíduo foi supliciado, em Castela, e que além do crime de que era acusado, confessou ter sido ele o autor do roubo cometido na igreja de Santa Engrácia, em Lisboa. Mais razão achou o povo para dizer nunca mais terem fim as obras de Santa Engrácia.

 

 

 

(nem sempre, sempre, nem nunca, nunca)