agradar a gregos e troianos

Difícil quase sempre, por vezes até impossível, agradar a gregos e troianos, que é dizer agradar aos dois lados de uma contenda, a pessoas com conceitos, opiniões, razões, diferentes, ou pior, adversas e extremadas, como em muitos casos de política, desporto, religião ou, mais comezinhamente, querelas de vizinhos.
Esta locução provém da Guerra de Tróia, narrada por Homero.

Um conflito, que durou mais de uma dezena de anos: durante um festejo entre espartanos e troianos, Páris, príncipe de Tróia, rapta Helena, e Menelau, seu marido, rei da Lacedemónia (Esparta), depressa levou os seus exércitos a cercar as inexpugnáveis muralhas de Tróia, cenário para encarniçadas e desgastantes batalhas.
Estes dois heróis da história, amados e protegidos por deuses, não viam modo de um ou outro alcançar vitória, pois aos deuses era difícil escolher ou ser imparcial.
Haveria de ser Ulisses, rei de Ítaca, que daria fim à guerra, usando a artimanha do seu célebre cavalo de madeira, onde se escondeu com os seus mais bravos guerreiros.
A cidade foi conquistada e, ao que se sabe, nunca os deuses se entenderam sobre qual dos lados litigantes deveriam apoiar…

 

 

 

(vê a quais agradas não a quantos)

ovo de Colombo

Toda a gente conhece a corriqueira história do ovo de Colombo e qual o sentido alusivo dado a esta expressão que, naturalmente, pretende significar a execução de uma coisa facílima mas que, de início, todos julgavam irrealizável. Ora até aqui nada de novo. O que deve ser novo (e para muita gente…) é que a história, tida como verídica, não teve rigorosamente nada a ver com o… Colombo!
Exactamente.
Para se falar com propriedade e de acordo com a verdade dos factos, dever-se-á dizer… o ovo de Brunelleschi.
Nascido em Florença, pioneiro da arquitectura renascentista, teve a admiração e o respeito do próprio Miguel Ângelo. Uma das suas obras, provavelmente a mais emblemática, a Catedral de Santa Maria del Fiore, construída em Florença nas primeiras décadas do século XV, tinha no seu projecto uma cúpula de grandes dimensões na qual ele pensava não usar ferro. A empresa foi considerada de tal forma arriscadíssima que foram chamados a Florença arquitectos e engenheiros de toda a Itália para darem os seus pareceres sobre os meios de cobrir a catedral. Brunelleschi apresentou os seus projectos e, cansado e ofendido por ver que não eram dignos de aceitação, regressou a Roma. Sucedeu, inevitavelmente, o que ele próprio previra: todos os artistas reconheceram as insuficiências dos seus conhecimentos e a limitação das suas capacidades para tomar a responsabilidade do encargo que se pedia. Brunelleschi foi novamente chamado e, seduzido pela importância do empreendimento, certo das suas convicções, propôs que fossem convidados a ir a Florença todos os mais célebres engenheiros e arquitectos, não só de Itália como também de outros países. Foram, rezam as crónicas, bastantes e afamados os artistas que demandaram Florença. E, naturalmente, as opiniões fervilharam, dividiram-se sem conseguirem o mais ténue consenso: uns queriam fazer o zimbório com pedra-pomes, por ser mais leve, outros propunham apoiá-lo sobre um emaranhado de arcos abatidos, outros alvitraram a construção de um pilar central que sustentasse uma abóbada anular; houve até quem sugerisse que se enchesse a igreja com uma montanha de terra, que servisse de forma à cúpula e na qual fosse enterrada uma boa quantidade de moedas, para que o engodo de encontrá-las induzisse o povo a desobstruir rapidamente o edifício, quando a cúpula estivesse terminada!…
Quando foi a vez de Brunelleschi falar, limitou-se a dizer que não precisava de pilares, de terra, arcos, cambotas ou mesmo armações de madeira. A sua abóbada se sustentaria sem apoio, pelo seu próprio peso e pela força da adesão das suas partes diversas. A opinião pareceu tão estapafúrdica e ridícula que, supondo que ele havia ensandecido, o fizeram sair abruptamente da assembleia. Voltaram aos projectos iniciais, recrudesceram as discussões e, novamente, concluíram pela impossibilidade.
Aí, alguém se lembrou e chamou Brunelleschi para que ele mostrasse os seus planos e os meios que pensava utilizar para concretizar a sua aloucada ideia. Ele, porém, não acedeu às exigências da assembleia e limitou-se a pedir que lhe trouxessem um ovo. Eis a forma do zimbório, disse ele. A dificuldade está apenas em mantê-lo de pé. Tão simples como isso. Quem indicar o modo de o conseguir, penso, será merecedor que o escolham como construtor.
Toda a assembleia, parecendo aceitar a ideia, consentiu em tentar a pueril experiência. Mas como era expectável, em vão. Então, Brunelleschi, batendo levemente com o ovo sobre a pedra da mesa, pousou-o brandamente sobre o fundo quebrado, deixando de pé, disse: Assim!
Um burburinho enorme em toda a assembleia com todos a vociferar que isso também eles mesmo fariam. Fariam mas não o fizeram, fez-lhes notar Brunelleschi que, sorrindo ironicamente, acrescentou o mesmo diriam do zimbório se eu lhes mostrasse aqui os planos e as formas de execução
O gracejo foi decisivo e graças a ele Brunelleschi foi nomeado arquitecto da obra que foi concluída em 1434, com a sua assombrosa cúpula, umas das mais arrojadas concepções do espírito humano e a mais admirável obra-prima de arte sacra jamais edificada.
Só o zimbório de S. Pedro, feito muito depois, excede este em altura, mas não se compara em beleza, arrojo e arte.
Miguel Ângelo diria que era muito difícil imitar Brunelleschi; mas que era impossível excedê-lo.
Quando a originalidade da história do ovo foi atribuída a Cristóvão Colombo, já a catedral tinha quase um século de existência e ninguém reconheceu, nem reconhece, a impropriedade da sua aplicação.
A verdade é que Colombo nem o caminho para a Índia sabia…

 

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(por que entra o cão na igreja? Ninguém sabe…
…mas a verdade é porque a porta está aberta)