estranhar a capadura

Neste postulado, bastante antigo, diz-se de quem passa de um estado de abundância para um de privação, perde um determinado estatuto social, enfim, o que, usando um jargão, genericamente também poderíamos apelidar de passar de cavalo para burro.
Nessas circunstâncias a pessoa estranha a capadura. Capadura, a que propósito e em que sentido? O axioma reflecte um certo modo aligeirado de explicar, que se trata de mutilar, tolher ou castrar, segundo alguns epidemiologistas.

Ninguém tem dúvidas sobre o que é uma castração, uma mutilação; não me parece que seja essa a moralidade do axioma. Vejamos:
Durante muito tempo algumas das ordens religiosas, tinham costumes e ritos iniciáticos para os noviços que visavam confirmar se eles tinham, ou não, vocação para uma vida monástica.
Em Portugal, para ilustrar esta sentença, vejamos os casos da Ordem dos Beneditinos ou a dos Franciscanos.
Uma dessas práticas era a de obrigar o uso de um hábito de rude estamenha,  directamente sobre o corpo. Este tipo de vestuário áspero, rijo e pesado, causava um enorme desconforto.
Esse trajo era, de facto, uma capa dura e, nesse amargo incómodo, os noviços queixavam-se da veste ao estranhar a capa dura.
Parece-me uma teorização mais razoável, diversa dessa outra conjectura, tanto na formulação como na raiz.

(não confundir com catadura, de catar desin. e suf. ura  Catar, do latim captare, significa buscar fixamente, apanhar. Catadura é o aspecto de quem olha concentradamente, de testa franzida. Dic. Etimo. Língua Portuguesa)

 

 

 

(não cabíamos ao fogo e veio o meu sogro)

três vinténs (tirar os)


Tirar os três vinténs
, ou mais vulgarmente tirar os três significa fazer sexo com donzela, fazendo-a perder a virgindade.

Entre nós, portugueses, mormente no Minho e Trás-os-Montes, o termo parece ter origem no uso dos cordões de ouro, especialmente aquele que era apelidado de primeiro cordão ou primeiro ouro. Esse cordão era oferecido quando os pais lhe admitiam a possibilidade de namoro. Nessa altura, a mãe também colocava, presa ao cordão, uma moeda de três vinténs.
A tradição era que só a mãe podia retirar esse amuleto, o que acontecia quando a moça saísse de casa para casar. O que, consagrando o corte umbilical, tomaria significado diferente que, no costume quotidiano e brejeiro do povo, acabaria por estar conotado a perda da virgindade.
Curiosamente, este axioma (ou gíria, assim igualmente suposto) também está relacionado com outra tradição, esta muito mais antiga e que teria sido trazida para a Península aquando da romanização.
Em Roma, a noiva, ao caminhar para o altar, levava na mão três moedas de asse. No altar, então, entregaria uma dessas moedas ao noivo e guardava as outras, manifestando desse modo que redimia um terço da sua servidão e que reconhecia que o casamento só a emancipava de modo parcial.
(o sistema monetário foi instituído na segunda metade do século quinze e seria alterado, para o escudo, em 1911, na sequência da instauração da República. Na imagem um vintém do reinado de D. Manuel I)

 

 

 

(virgindade e chumbo pesam muito)