chunga

Chunga é um calão (a propósito, calão, que significa determinado nível de linguagem grosseiro, de fraca cultura, escandaloso e soez, é um s. m. que deriva do castelhano caló, m. q. cigano ou linguagem cigana. Na assimilação, em português também define preguiçoso, vadio ou desleixado. Mas, ainda poderá ser barco grande de pesca no Tejo, ou no Algarve), que tem a sua origem no Japão, tendo chegado até nós, provavelmente, desde a chegada dos portugueses ao Oriente, em meados do século XVI.
Shunga era uma vulgar e requisitada impressão de folhetos com gravuras de carácter sexual (mais pornográficas do que eróticas), produzidas entre os séculos XVI e XIX.  No caso, Shunga não era mais do que o abastardamento do significado correcto do louvor e representação da Primavera no ciclo da Vida, a ilustrar a função da sexualidade.
A diferenciação de cultura e o modo áspero e caricaturalmente deformado (as personagens das gravuras surgiam, as mais das vezes, em posições distorcidas e desproporcionadas, especialmente no toca aos órgãos sexuais masculinos), causou repulsa aos navegadores que logo associaram Shunga a esterco e porcaria, como escreveram os cronistas Zeiomot e António da Mota, acrescentando que daí se generalizou qualificar as situações mais reles como chunga ou chunguice.
Será, no entanto, curioso acrescentar que, na época, era comum que os Shunga fizessem parte do enxoval feminino de modo a que a observação dessas apimentadas e matreiras gravuras ajudasse a educar e preparar as noivas, em particular as mais ricas, já que recebiam gravuras em número elevado e, ao que relatam as crónicas, eram de custo elevado…
Transformado em verbo, chungaria, serve de insulto (sinónimo de azeiteiro, mitra, javardo, bácoro) ou indicativo de má qualidade (chunguice, chungoso, foleiro, reles,  fúfio).
É de ficar amarelo…

 

 

 

(o cetim e os veludos apagam a luz da cozinha)

vai bardamerda

bardamerdaClaramente uma onomatopeia que resulta de um encadeado de erros, cuja origem, essa sim, poderá conter alguma discordância entre os estudiosos destas coisas.
Vejamos a provável explicação: desde o advento dos grandes aglomerados populacionais que, por via disso, o asseio e a higiene não eram, de todo, das preocupações mais com primazia.
Daí que, sem água canalizada e esgotos, os dejectos de cada casa eram acumulados em baldes que, depois, eram atirados para a correnteza de água mais perto. Isto, claro, na melhor das hipóteses. Esse trabalho, executado pelos próprios ou pelas calhandreiras, a eles e a todos com quem se cruzavam, causava náusea e vómito não só pelo pivete como pelo aspecto daquela mescla imunda e fétida. Perante tal fedança, é natural que dizer a alguém que vá beber da merda fosse um insulto acre e medonho.
(embora haja quem defenda existir uma provável reminiscência com um costume do século XIII (que D. Dinis decretou pena de morte a quem assim procedesse) que era colocar, ou obrigar a isso, excrementos na boca como forma de ofensa à vítima.
Essa acção era conhecida por merda na boca)
A ilação que nos parece mais consistente pode ter sustento no começo do século XIX em vários escritos verrinosos sobre as invasões napoleónicas, mas também, mais recentemente, em 1925, Raul Brandão, nas suas Memórias, conta que o escritor José António de Freitas disse ao amigo Barros Gomes Vai beber da merda!.
Vale? Não vale? Depois de lido e relido sobre o assunto, não me parece desacerto, mas…
Pouco depois da Revolução de Abril, em 13 Novembro de 1975, quando a Assembleia da República foi cercada por operários da construção civil, o então primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo aproximou-se dos manifestantes procurando dialogar. Como tivesse sido recebido por vaias e gritos de fascista!, virou-lhes as costas depois de lhes responder Bardamerda para o fascista!.

Seja de que época for, a onomatopeia cá está, em uso naquelas situações em que a paciência se esgota. Isto porque assim se tornou com o tempo, desgastando-se e transformando-se como se de uma lengalenga se tratasse.
A verdade é que, por vezes, dito de pulmões dilatados, é bem provável que surta mais efeito do que uma consulta ao psiquiatra.

 

 

 

(por causa do sujo ninguém vai à botica)