nenhum dia sem uma linha

Recentemente, uma figureta pública, a propósito de um dos seus escritos publicados, dizia numa entrevista, publicada num jornal regional, que tinha por hábito escrever um pouco todos os dias. Talvez porque achasse a frase um tanto sensaborona, acrescentou-lhe uma pitada de latim, convencido de que não só a escrita ficava mais composta como, no embalo, acrescentava-se com o latim aos olhos do leitor. E lá sentenciou… nullus dies sine línea!
Há muito quem pensa que se benze e parte o nariz, dizem os mais antigos.
Pois é: crê-se, geralmente, que este aforismo pertence a um qualquer escritor latino, que tivesse por preceito escrever todos os dias, umas poucas linhas que fossem, e recomendasse tal princípio aos que quisessem melhor aproveitar o tempo, com perseverança, na feitura das suas obras.

O fundamento é verdadeiro, a patetice é que a autoria, o meio e a finalidade, essas, estão erradas.
A máxima é de um pintor grego, de nome Apelles, que viveu no século IV a.C., a quem Estrabão considerou o maior e o mais importante. Estrabão refere que Apelles, no seu Tratado de Arte, dizia que nenhum pintor, zeloso da sua reputação e do seu trabalho, deveria deixar passar dia algum sem desenhar.
Linea não é escrever numa linha; é desenhar uma linha.

 

 

 

(ele até sabe como mija a formiga)

perder o tempo e o latim

tempo e latimA origem desta popular locução está bem descrita em Bâtons Rompus, de Marianne Maurer, uma colectânea destinada ao ensino da língua francesa e que contém uma curiosa explicação para a expressão. A léria é, mais ou menos, assim:
Augusto, vitorioso numa guerra, regressado a Roma, recebe no seu palácio um homem com um papagaio ensinado. Dizia o bicho: Salve, César Invicto! O imperador, encantado, comprou-o por alto preço. Logo apareceu outro homem, agora com uma pega, que igualmente falava: Salve, Augusto, vencedor glorioso! Claro que também a pega foi comprada por boa maquia.
Então, um sapateiro quis ensinar coisa parecida a um corvo. Mas a empreitada tornou-se um fiasco; o corvo não ia lá de modo nenhum! E o sapateiro, com tamanhas dificuldades, queixava-se a toda a hora: Não adianta! Estou a perder o meu tempo e o meu latim! Porém, tanto perseverou que por fim o corvo lá aprendeu umas palavritas lisonjeiras. E foi, o sapateiro, lesto, ao palácio. O corvo grulhou umas sílabas, mas o Imperador não estava nos melhores dias: Chega de tanta adulação! Não compro mais pássaro algum!… Naquele instante, recordando subitamente as palavras vezes sem conta repetidas pelo desanimado sapateiro, o corvo gritou: Não adianta! Estou a perder o meu tempo e o meu latim! Augusto riu e comprou o corvo por um preço bem maior do que havia pagado pelas outras aves…

 

 

 

 

(com dinheiro, língua e latim, vai-se do mundo até ao fim)