memórias ancestrais

Uma bem razoável percentagem dos homens, cinco vezes por semana – pelo menos – fica diante do espelho, e durante alguns minutos concentra-se num ponto logo abaixo da maça de Adão, onde as suas mãos se atarefam a dar um nó (ou a fazer uma coisa parecida...) a um bocado de pano colorido, à volta do pescoço.
Se fiz mais ou menos bem as contas, é um ritual que cumprirá, em média, umas catorze mil vezes durante a sua vida!

Por que é que os homens usam gravata?
Parece tudo apontar para que o costume esteja ligado a hábitos tribais. Por toda a Europa e mesmo no extremo asiático, os homens de vários lugares, e em épocas diferentes, costumavam amarrar tiras de pano à volta do pescoço, nos quais penduravam as suas insígnias ou amuletos de sorte ou poder. Depois de um combate, o homem limpava a faca manchada de sangue ao tecido, deixando visíveis os vestígios sangrentos da sua coragem. Julga-se que o apego a esse talismã de fortuna e virilidade, foi a razão de ter perdurado para além dessas épocas tribais.
Como curiosidade, imagine-se a repetir esse gesto, naturalmente na sua maioria supondo a faca na mão direita. Vai descobrir que as marcas, riscas, que se formariam nesse pano amuleto não seriam exactamente horizontais, mas sim inclinadas para o ombro esquerdo.
Será essa a reminiscência do padrão típico das gravatas às riscas?…

 

 

para que tudo se alimpe

Eu varri a minha testada‘ anexim a retorquir ao outro ‘alimpe cada qual a sua testada‘, usados quando se degladiavam acusações, mexericos, maledicências e difamações.
Agora que tanto se fala no Decreto-Lei qualquer-coisa de 2006, mai-lo outro de 2009 e as notas, comunicados, avisos e participações daqui, dali e dacolá, talvez venha a propósito recordar este velho aforismo alentejano, já de provecta idade, pois que, coisa menos coisa, rondará a bonita soma de quase 350 anos.
Derivam estes aforismos, exactamente das obrigações desses tempos, impostas pelas câmaras, nas cidades e vilas, em que cada um devia limpar a sua testada (a parte de terreno que fica frente à sua propriedade ou casa) até meio da rua, estrada ou caminho, para que tudo se alimpe.
A rua será varrida de hua banda e da outra que se o contrario fizer, pagará çem reais para o Rendeiro ou para quem o acusar’, assim está escrito no Livro 2º das Posturas d’Elvas, de 1672.
Simples! E todo o cidadão ficava, assim, bem esclarecido.