bica ou cimbalino?

Descia a rua de Sá da Bandeira, no Porto, entrou n’ A Brasileira e, no balcão, pediu:
– Queria um cimbalino, por favor!…
ou
Saiu do banco, ali no Chiado, deteve-se uns instantes a olhar uns malabaristas, e como ainda tinha tempo, um pouco à frente, entrou n’ A Brasileira para ‘beber uma bica’.
cimbalino’, ‘bica’… ou, apenas, um pouco de café, geralmente servido numa pequena chávena de porcelana (embora, agora, estupidamente, teimem no use-e-deite-fora feito plástico). Exactamente: um café. Mas porquê ‘cimbalino’ ou ‘bica’? Mais: por que diacho, tripeiros e alfacinhas gozam, reciprocamente, com isto?
Apenas picardias bairristas, sem fundamento razoável, Vejamos:
O café expresso, tal como hoje o conhecemos, nasceu por volta dos finais da década de 40, no século passado. Se bem que, a sermos rigorosos, o café expresso exista desde o começo do século XX (1902), a verdade é que a tecnologia era incipiente e o resultado um tanto frustrante. E assim se manteve, até à introdução da inovadora Gaggia Crema Caffe, em 1946, uma marca italiana que já configurava os conceitos actuais do café expresso. A difusão por toda a Europa foi rápida, de alguma forma facilitada pelos ventos favoráveis do fim da Segunda Guerra e consequentes desejos de prosperidade e consumo. Nos começos de 1956, uma nova marca (italiana, claro…) resolve trazer a novidade para Portugal. Em Lisboa e no Porto são instaladas as novíssimas máquinas de café à pressão, da marca La Cimbali. De início (agora, no que toca à cidade do Porto) a nova designação de um café à moda italiana não pegou. Os clientes estavam arreigados ao velhinho sistema e, o café à italiana, nicles, virou um fiasco (palavra que, como sabe quem leu o Coisas do Arco-da-Velha, também é de origem italiana…). Até a marca se lembrar de inovar na publicidade. Nos cafés apareceram cartazes sugestivos com a frase ‘Não peça café. Peça um cimbalino e sinta a diferença’. Estava criado um nome para o produto da marca das máquinas. O Porto aderiu em massa à ideia. E ao nome. Que ficou.
Em Lisboa, a história é diferente. Mas não tanto que dê azo a achar que só o cimbalino justifica um risinho maroto…
Neste caso, temos de ir aos primórdios dos estabelecimentos, vulgarmente chamados cafés. Que resultaram da combinação de duas componentes que, há cerca de dois séculos se juntaram: por um lado, a chegada, constante, do café oriundo do Brasil e, por outro lado, a inspiração nas tertúlias francesas. Daí resultou, de início, logo se tornarem locais privilegiados de convívio para os artistas, escritores, boémios e políticos.
Em 1905, Adriano Teles do Vale, um torna-viagem, que enriqueceu no Brasil à conta da produção agrícola do café, abriu o primeiro estabelecimento de café público, na rua Garrett, em Lisboa: A Brasileira. Era anunciado como o ‘verdadeiro café do Brasil’, de aroma e sabor inigualável. O negócio, a princípio, parecia destinado ao fracasso: as donas de casa não comprovam ‘aquele pó escuro e malcheiroso’ e n’A Brasileira, os homens achavam que aquela ‘coisa preta’ sabia mal. Ao que parece, por desconhecimento, pegavam na pucarinha e, se não estivesse muito quente, abocanhavam-no de uma só golada. Era preciso dizer aos clientes, um a um, que deveriam por um pouco de açúcar antes de o beber. Como por vezes o aviso escapava, o patrão mandou colocar um cartaz no balcão: ‘Beba isto com açúcar’. As primeiras letras da frase… BICA.
É verdade que, a esta historieta, se deve acrescentar uma outra que diz, serem as bicas das máquinas de café expresso, a origem do pedido ‘uma bica, por favor’. Olhe: escolha a explicação que lhe der mais no goto!  
Já agora, sabe como deve ser um bom café?
Deve ser negro como a noite escura, quente como o Inferno e doce como o Amor.

Vamos tomar… café?

 

 

 

(Depois de beber, cada um dá o seu parecer)