um crime com 700 anos…


Misteriosa e apagada, diluída na sombra, ficará talvez para todo o sempre, na História portuguesa, a figura débil de D. Maria Afonso, filha do rei D. Dinis. Da infanta (bastarda) mal rezam as crónicas. Dizem que professou na Ordem de S. Bernardo, que foi abadessa da Ordem e que morreu em 1320, com apenas dezanove anos.
Não é, porém, da sua vida monástica, que me pretendo ocupar. Pouco importa também saber se é ou não filha de Mor Afonso ou de Branca Lourenço de Valadares (a). O meu desejo seria, apenas, poder aclarar o mistério escondido nas pedras do seu túmulo, mistério que o destino, mercê de acasos imprevistos, se compraz em confundir e escurecer…
Que não foi feliz D. Maria Afonso bem se o depreende de escassos relatos dos cronistas que dela entenderam falar e, isso mais do que dos seus silêncios, se conjectura sobre o que se deduz dessas palavras.
De uma sua irmã, também D. Maria Afonso, bastante se sabe, não podendo contudo, haver confusão nos relatos, pois nada há em comum além da paternidade real, entre a mulher de D. João de Lacerda, filho do pretendente de Leão e Castela e a monja humilde de um escuso mosteiro que, curiosamente, ninguém refere em qual fez clausura. Mas que se precisa, com exactidão, Odivelas (junto do pai) onde foi sepultada.
Falemos, portanto, do seu túmulo…
Do lado da epístola, na igreja deste convento de Odivelas, tomando o lugar do altar da capela está um túmulo. Sobre a laje do tampo repousa uma estátua de mulher. Tão sereno é o ar do seu rosto que parece dormir e tornar possível um erguer de pálpebras se alguém quebrar o silêncio da capela normalmente fechada e deserta. A sua beleza ressalta ainda da imperfeição da escultura já devastada pelos séculos e sobre os lábios da morta voa e paira qualquer coisa que deveria ter sido um quieto sorriso de beatitude.
Há em toda a figura uma expressão de dor serena que faz lembrar um martírio lento, uma injusta expiação resignada, uma passividade muito cristã e submissa a um destino inexorável e funesto.
O túmulo não tem epitáfio; isto, porém, confirmaria (se lá não estivesse o brasão real) a qualidade da pessoa sepultada, pois era e foi durante muito tempo, hábito consumado não escrever epitáfios julgados desnecessários em túmulos de pessoas de tão alta hierarquia; mas, se lhe falta o epitáfio, sobram-lhe pormenores que para todo o sempre acorrentarão o mistério às suas lajes, deixando o caminho livre a todas as fantasias e a apaixonadas suposições…
Não assenta o moimento de D. Maria Afonso (b) como todos os desse tempo em cachorros ou leões de pedra, golfinhos, ursos ou carrancas, mas sim sobre figuras humanas, sendo, a do lado da cabeceira, um frade de bruços, cingindo o cordão sobre o hábito, apoiando-se nos joelhos e cotovelos. Esta figura só tem de extraordinário o facto de ser um homem (pormenor 1). O mistério está, porém, no outro suporte do túmulo e que representa um terrível atentado. Deitada de costas, talvez em camisa, uma criança debate-se contra o ataque de um homem que, vergando-a e caindo sobre ela, mostra claramente que a violenta (pormenor 2). O infame veste sobre o traje de cavaleiro o hábito de uma ordem de cavalaria que não é (nada) difícil adivinhar. A bainha da espada pende-lhe, vazia, do cinturão. No rosto da criança, colhida de improviso, está esculpido o terror. Com as mãozitas fracas repele-o e a boca, desvairada pelo susto, cristaliza um grito. O cavaleiro, para abafar de vez aquela voz que o acusa, tenta enterrar-lhe a espada no lado esquerdo do peito (pormenor 3).
Sabemos que era costume dos antigos deixar nas pedras fúnebres representada alguma cena capital da vida do morto; será esta a tragédia de D. Maria Afonso? Seria este o desastre sofrido em tenra idade a causa do silêncio feito em torno da filha de D. Dinis?
Não sei e julgo que ninguém o sabe ou virá a saber.
Mas outro mistério esconde este túmulo singular…
Há muito anos (não foi possível precisar quantos) procedendo-se à abertura do túmulo, foi encontrado nele um caixão de madeira aberto pelas juntas. Cobriam-no os restos de duas colchas de seda, cor-de-rosa uma e outra de estofo de lã com listas de seda. Era o caixão da Infanta. Aos pés da morta, porém, foi encontrado parte de um esqueleto de criança de menos de um ano e um casaquinho de seda verde. Poderia ser, este duplo achado, a chave do enigma: ter a pobre infanta violada dado entrada no convento para, em segredo, esconder o fruto da sua desgraça. Todos talvez achariam certa a resolução do pai e a clausura da filha. Mas aí surge outro mistério e este, agora, de molde a destruir (ou, no mínimo, a baralhar confusamente) todas as conjecturas e a desbaratar todas as fantasias: dentro do mesmo túmulo, junto do casaquinho de seda estava um centil de D. Manuel, ou seja, uma moeda do século XV junto dos dois esqueletos do século… XIV!
Outro drama?, outra tragédia?, ou apenas uma moeda que ali foi metida por uma fissura, num gesto inocente?…
Não sei; mas gostaria que os pesquisadores da espécie subissem aos andaimes fúnebres destes dois esqueletos e deste centil do rei venturoso…
O Mosteiro de Odivelas, por D. Afonso (irmão do rei D. Carlos) foi transformado em escola feminina para filhas de militares. Já no tempo do Estado Novo, em 1938, sofreu obras de vulto e, na ocasião, procedeu-se à abertura de um dos dois túmulos ali existentes: o do rei D. Dinis (que viria a revelar um homem bem constituído e, ainda, vestígios da sua ruiva cabeleira). O da sua filha bastarda, D. Maria Afonso, esse, se alguém o abriu, nada consta.
O Tempo persiste em não deixar desvendar este crime com quase sete séculos. Depois de lá ter passado, ficou-me a mágoa por esta infanta tão cedo morta para o mundo e nascida para a eternidade.

Nunca se soube, ao certo, quem foi a sua progenitora. Mas sabe-se que, se era filha de Branca Lourenço, então, seria irmã de Aldonça Lourenço que, um dia, viria a ser mãe de uma bela donzela chamada Inês de Castro

(Cadernos de História, 1982)

(a) a quem o rei fez doação da vila transmontana de Mirandela ‘pelos seus mui apreços’…
(b) a má qualidade da fotografia apenas se deve à fraca máquina fotográfica que, em 1976, consegui fazer passar à entrada.