a Marquesa de Távora

(23 de Janeiro de 1759)
250 anos

(…) à volta do tablado postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva.
Havia uma escada que subia para o patíbulo. A Marquesa apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de cinquenta minutos. Entretanto, aqui e ali, martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita, com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos.
Trajava de cetim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes.
Receberam-na três algozes no topo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o maço de ferro que havia de matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas com que lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostraram, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada e pediu que a matassem depressa.
O algoz tirou-lhe a capa e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa, que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas e não podia compor o vestido, que caíra mal. Ergueu-se, e com movimento do pé concertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço –não me descomponhas– disse ela, e inclinou a cabeça, que lhe foi decepada pela nuca, dum só golpe. (…)

Camilo Castelo Branco

Motim do Vinho do Porto


A Companhia dos Vinhos do Alto Douro foi criada pelo Marquês de Pombal em Junho de 1756. Na sequência desta decisão do ministro de D. José, o povo do Porto sublevou-se e, no dia 23 de Fevereiro do ano seguinte, mal o dia raiava já uma enorme multidão se dirigia a casa do Juiz do Povo e, fazendo-o cabeça do motim, seguiram para a casa do desembargador, Bernardo Duarte de Figueiredo, obrigando-o a dar por extinta aquela Companhia que havia sido confirmada por Alvará Régio de 10 de Setembro de 1756. Seguiram-se violências, distúrbios, arrombamentos de portas, roubos, devassas nos armazéns da Companhia, encerramentos das suas tabernas e tudo o mais que, na altura, era de uso em irritações populares.
Mas, a verdade é que o Marquês estava determinado e não permitiu veleidades a este motim do vinho do Porto. Logo no dia 28 do mesmo mês de Fevereiro, uma alçada enviada à cidade por ordem do Marquês, teve este resultado:

Condenados na pena ordinária do delito: 21 homens e 5 mulheres
(destes só 13 homens foram enforcados, visto que 8 se evadiram e, das mulheres, só uma o não foi por se achar no seu estado interessante),
Em açoutes, galés e confiscação de metade dos bens: 26 homens,

Em açoutes, com a dita confiscação e degredo para Angola e Benguela: 8 homens e 9 mulheres,
Em degredo para Angola e a dita confiscação: 8 homens e 1 mulher,
Para Mazagão em degredo e confiscada a terça parte dos bens: 9 homens,
Para Castro Marim e penas pecuniárias: 3 homens,
Para fora da comarca, confiscada a quinta parte dos seus bens: 26 homens e 5 mulheres,
Em seis meses de prisão e diversas penas pecuniárias: 54 homens e 9 mulheres,
Impúberes condenados a ver as execuções: 17 homens,
Facínoras que foram enviados à Relação para serem sentenciados pelos meios ordinários: 16 homens,
Condenados para a Índia: 4 homens,
Mandados soltar em várias audiências: 183 homens e 12 mulheres,
Absolvidos: 32 homens e 4 mulheres.
 

E a ordem assim se manteve por mais 26 anos…