estar com a telha

Generalidade que a voz popular toma por maluqueira, má disposição, enjica, casmurrice ou pancada na mona. A telha, ou o telhado, é, naturalmente, a cabeça da casa. Assim, daquele a quem a cabeça dá para a mania, pegadilha, mau feitio, impertinência ou má catadura, diz-se que tem a telha, que está com a telha ou está telhudo.
Dizia Fialho de Almeida (…) a Marcolina declarou que estava com a telha, uma alergia mesmo lá de dentro (…), nos seus Doentios e, também, (…) não passam, mau grado o talento do místico Verlaine, de um grupo de telhudos (…), nas páginas de Os Gatos.
No Fado da Esturdia, da revista O 31, de Pereira Coelho e Luiz d’Aquino, levada à cena em Lisboa, no começo de 1900, há esta quadra:
Ninguém, nem tu compreendes
o que dentro em mim eu sinto:
o fogo da Júlia Mendes,
a telha da Ângela Pinto.
Outro fado, muito em voga, mas este nos anos de 1880…
Que o mundo sofre de telha,
é um ponto de muita fé;
a mulher traz cães ao colo
e as criancinhas a pé.
A propósito disto, há uns tempos, o meu amigo Bartolomeu, aproveitando a ocasião para me zurzir sobre as acabadas Folhas da Gaveta que, dizia (…) foi lamentável que te tivesse dado na telha para fechares a Gaveta (…). Isto falando de blogues.
Ora, queria ele dizer – mas não disse… – que se não me tivesse dado para a maluqueira
Como e quando surgiram esta e outras expressões relacionadas com a doidice ou insânia? É verdade que para exprimir a falta de juízo ou outros desvios à dita normalidade mental, muito se inventa em todas as línguas grande número de sinónimos ou diferentes dizeres, quase sempre impregnados de um cunho de riso ou troça, pouco simpáticos e nada caridosos. Creio que isso é porque, lá bem no fundo da nossa própria consciência, nenhum de nós tem uma confiança segura no seu próprio juízo, de modo que, quando acusamos os outros da falta dele, raras são as vezes que levamos o caso a sério.
É o se me der na telha (como me acusa o Bartolomeu), faço e aconteço. O fulano é um telhudo e o sicrano tem mais telha do que um telhado. Aquele está com a bolha, percebe-se, porque uma bolha de ar enfraquece o material, seja vidro, metal ou outra coisa. Este melro tem uma aduela a menos, também se entende, porque basta que falte uma aduela para o barril não servir para nada. O gajo não regula, claro, a alusão é ao relógio que se adianta ou se atrasa. Falta-lhe um parafuso, também é óbvia a comparação. Quando dizemos que alguém anda destrambelhado, embora pareça mais difícil, não é: a origem é a etimologia com a falta de trambelho, trabelho, taramelo (conforme o regionalismo), peça que trava portas ou impede movimentos desordenados a alguns engenhos. Também é relativamente comum ouvir-se dizer que esse sujeito é pílulas. Aqui o entendimento da expressão parece ser de origem conjectural. Há uma velha cantilena popular que diz O meu amor tem farmácia, / lá está sempre a fazer pílulas; / se as continua a fazer, / um dia vou lá e tiro-las. As pílulas, antigamente, geralmente feitas à mão, não eram perfeitamente redondas, de modo que, ao abrir a caixa, facilmente se espalhavam em todas as direcções. Assim, ser-se pílulas equivalerá a ser-se imprevisível, a não se poder prever o que faremos em qualquer circunstância. A propósito, até nomes próprios, não se sabe bem porquê, acabam por ser sinónimos de bernardice: Lucas e Matias. Não te faças de Lucas, ou, já estás é Matias. Matias, como sinónimo de tarouco ou taralhouco, outras expressões correntes para, por outro lado, designar o enfraquecimento do juízo por razões de idade.
Mas ninguém se admire pelo facto de não haver uma explicação cabal para a origem de muitos destes significados de maluqueira, porque o mesmo acontece com as expressões, digamos, clássicas, para exprimir as mesmas ideias. Tolo, louco, doido, por exemplo, são expressões sobre as quais não há acordo relativamente à sua etimologia. Há algumas ideias, mas não passam disso…
Mas, voltando ao início desta conversa, porque será que a palavra telha se associou à maluqueira? Há mais de um século, em algumas regiões, as mulheres usavam uns chapéus de asas dobradas para as faces, de uma e outra banda, armação esta que, dizia-se, lhes dava a figura de telha. Virá daí? Não sei.
Não sei e agora não tenho tempo para pensar mais nisso. Demais, isso levanta-me um outro problema: como os telhados, na sua forma tradicional, tendem a desaparecer, substituídos por terraços, não tardará muito que teremos de dizer a vizinha do terceiro esquerdo tem mais telha do que um terraço.
Mas os terraços não têm telha!…, dir-me-ão.
Pois não. Isso é verdade. Mas chamam-se terraços e também não têm terra!
A não ser que andem mal varridos.
(a escrita está um bocado doida varrida, não está?…)

 

 

 

 

(guarde-vos a Virgem da ira do Senhor,
do alvoroço do povo e de doudo em lugar estreito)