atrás da máscara
(para a história da Guerra Colonial)

As maçadas africanas de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o ex-capitão Henrique Galvão surripiou o paquete Santa Maria e se preparava para rumar até Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, logo à partida, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, o eleito Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo 6.000 dólares anuais, o que foi posteriormente aumentado para 10.000 e depois para 25.000.
Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando ‘ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal’.
A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro  da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola; Botelho Moniz informou Oliveira Salazar, que fiz ouvidos de mouco.
Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos (tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital, Mbanza Congo, os portugueses rebaptizaram como São Salvador do Congo, quando ali chegaram, em 1482. Acrescente-se, a propósito que Holden Roberto era bakongo) pegaram nas catanas e massacraram mais de mil brancos e oito mil trabalhadores por todo o norte angolano. Nos dias que se seguiram a população branca, maioritariamente de Luanda, improvisou milícias, que responderam também com violência (em muitos casos perfeitamente gratuita) e, deste modo, começou uma guerra que se prolongou por 13 anos (para acabar mal), com evidente responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.
21 de Março, em Luanda, milícias brancas atiraram o carro do cônsul americana a baía, pintaram os muros do consulado. No mesmo dia, em Lisboa, houve manifestações frente à embaixada americana. Apesar dos protestos, na semana seguinte, o secretario de Estado Dean Rusk chegou a Lisboa com uma proposta de Kennedy: a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.
0 livro ‘Engaging África: Washington and the Fall of Portugal’s Colonial Empire’ (Envolvimento em África: Washington e a Queda do Império Colonial de Portugal), de Witney Schneider, vice-­secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos durante a administração  Clinton, revela que Paul Sakwa, assistente do vice-director de planeamento dos serviços de espionagem CIA elaborou um plano, o ‘Commonwealth Plan’, que visava convencer Portugal a conceder a autodeterminação a Angola e Moçambique, após um período de transição de oito anos, durante o qual seria realizado um referenda nas duas colónias para se determinar  que tipo de relacionamento seria mantido entre os dois territórios e Portugal após a independência. Durante esse período, Holden Roberto e Eduardo Mondlane, líder da Frelimo surgida em Moçambique, seriam preparados para serem os presidentes dos novos países.
Para ajudar Salazar a engolir a pílula amarga da descolonização, Sakwa propôs que a ‘NATO oferecesse a Portugal 500 milhões de dólares para modernizar a sua economia‘, escreve Schneider.
A proposta viria a ser ampliada pelo diplomata Chester Bowles com mais 500 milhões de dólares de ajuda a Portugal durante um período de cinco anos. 0 plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretario de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: ‘Portugal não esta à venda’.
Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se. Em 1970, um estudo do National Security Council sobre a África Austral excluía peremptoriamente a ‘possibilidade de um colapso português em África’.
Com efeito, em 1974, o exército português controlava todo o território, as operações tinham cessado em 1972, a livre circulação era um facto e os movimentos independentistas estavam minados por divisões internas. Agostinho Neto estava a braços com profundas guerras internas e o MPLA estava recuado na Zâmbia. Na FNLA, Holden sucumbira a influência do cunhado, o (então) presidente do Zaire, ao ponto de Mobutu Sese Seko ter proposto que se permitisse a independência a Angola, aceitando que Portugal escolhesse o nome de quem desejasse colocar no lugar de Holden Roberto, como revelou o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira no livro ‘Quadros de Viagem de um Diplomata: África – Congo Zaire Angola’.
Quanto à UNITA, de Jonas Savimbi, que nas administrações Reagan e Bush (pai) se tornara o principal aliado de Washington em Angola, encontrava-se abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida e, mais ou menos, feita com a tropa portuguesa.
Em Janeiro de 1975, Holden, Neto e Savimbi assinaram com o Estado português o Acordo do Alvor, que marcava a independência de Angola para 11 de Novembro desse ano. Na véspera, a bandeira portuguesa desceu pela ultima vez no palácio do Governo, 492 anos depois das naus portugueses ali terem largados ferros.
Proclamada a independência, Holden Roberto borrifou-se para o Acordo de Alvor, reuniu um exército com o que restava da FNLA, mercenários portugueses e ingleses, tropas da África do Sul e avançou sobre Luanda.
Foi travado pelo MPLA, sobretudo pelos cubanos, as portas de Luanda. Ainda se juntou a Savimbi para proclamar a efémera República Democrática de Angola, com sede no Huambo, mas que se desfez com a retirada sul-africana e sem apoio de qualquer país. Nessa altura, a FNLA e o seu líder eram já uma sombra do passado. Holden exilou-se em Paris e só voltou a Luanda em 1991. 0 apagamento progressivo do velho líder bakongo foi consumado em 1992, nas primeiras legislativas democráticas, onde a FNLA obteve apenas 2,4% dos votos e cinco assentos no Parlamento. Crises internas levaram ao afastamento de Holden da presidência do partido, passando a mero presidente honorário.
Em 1974, os americanos, que já previam a queda de Holden, passaram a apoiar Savimbi para tentar impedir uma vitória da influência soviética e (ainda por cima) cubana em Angola. Mas garantida a posse de Luanda, o Governo do MPLA conseguiu o reconhecimento da OUA e de Portugal em Fevereiro de 1976 e logo se seguiram outros países. Os EUA, embora a Gulf continuasse a exploração de petróleo em Cabinda, só em 1993, durante o governo Clinton, 18 anos após a independência, reconheceram a Republica Popular de Angola.
A partir daí tudo seguiria o trilho da normalidade e do progresso.
Devia ser. mas não foi.

 

 

máscaras

 


Nos primeiros dias deste ano, os jornais de Angola (mais uma vez) apincharam indiscriminadamente cobras e lagartos sobre a imprensa em Portugal. Não é assunto sobre as razões, ou a falta delas, que aqui trago a terreiro. O Jornal de Angola, primus (unicus) inter pares, é a voz do governo, do presidente, no todo a voz do MPLA. Que, sem peias nem meias, desde Novembro de 1975, se arvora como o instrumento libertador de Angola do jugo colonialista português. E, na prática, assim tem sido aceite, como facto histórico, ao longo destes quarenta anos. Mas não é
A História não se escreve como (mais) dá jeito. E, por ironia, nestas páginas africanas, a ironia acaba por ter um protagonismo curioso…
Na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, cerca de duas centenas de activistas, armados de catanas e uns poucos canhangulos, tentaram tomar de assalto instalações militares, em Luanda. Os ataques correram mal e acabaram por desencadear uma indistinta e sanhosa repressão, por parte das autoridades e dos colonos, sobre os musseques (bairros populares da periferia da cidade). Mas, de qualquer forma, o mundo inteiro ficou alertado para a situação que se vivia em Angola (exactamente um mês depois do Massacre da Baixa de Cassenge, onde foram chacinados trabalhadores; um número controverso que vai das várias centenas aos milhares). Por ‘coincidência’, naquela altura encontravam-se muitos jornalistas estrangeiros em Luanda, atraídos pelo interesse jornalístico do assalto ao barco Santa Maria (22 de Janeiro), perpetrado por um comando ibérico liderado por Henrique Galvão, que estava planeado ser desviado para Luanda.
Até aqui a História está escrita, embora a punho (muito) omisso, balbuciante e rudimentar. Mas há o que ainda não tem o cadinho da História e permanece na fimbria de um conveniente esquecimento:
Se no caso da revolta de Cassenge, facilmente se percebe a espontânea adesão à retaliação por parte dos trabalhadores, apoiados, sim, por um reduzidos número de nacionalistas independentistas, mas descoordenados e, por isso, rapidamente reprimidos, o ataque de 4 de Fevereiro à Casa de Reclusão, à prisão da PIDE, à sede dos Correios e ao edifício da Emissora, esses, foram planeados e executados por um forte quinhão humano  e de armas afectos à UPA (União dos Povos de Angola), baseada no ex-Congo Belga, liderada por Holden Roberto que tinha o apoio americano, expresso, até, pessoalmente por John Kennedy. De tal modo que, a partir de 15 de Março, a UPA desencadearia violentos ataques, a partir Matadi, no já denominado Congo-Brazaville, sobre dezenas de fazendas, no norte angolano. A 4 de Março, o embaixador americano em Lisboa, Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa português, general Botelho Moniz, da decisão da UPA iniciar os ataques em Angola; Botelho Moniz disse a Salazar, que fez ouvidos de mouco e o mandou embora. Fotografias dos massacres contínuos, por toda a região norte angolana, rapidamente se espalharam por todo o mundo. Holden Roberto, que tinha todos os trunfos para liderar o processo independentista, ele, nascido de um dos povos dos Dembos foi um dembo demo (que são géniozinhos que tanto podem ser do Bem como do Mal). A 20 de Março estava em Nova Iorque (de onde não saía há anos), viu as imagens das matanças e, mais tarde, acabaria por dizer ‘vi homens esquartejados, crianças retalhadas e mulheres violadas. Eu estava no meio de brancos e não tive coragem de reivindicar a acção’. De facto. Mas a 17 de Março, os dirigentes do pró-soviético MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, fundado em 1956, por Agostinho Neto) na sua maioria estudantes e intelectuais, exilados na Guiné-Conakri, já afastados dos ideais do fundador, perceberam a oportunidade e correram a apregoar aos ventos, como seus, os ataques executados. Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Lúcio Lara apostaram tudo nessa forma praticamente oferecida para que o seu movimento adquirisse visibilidade e notoriedade, sem que para tal tivessem pegado numa simples fisga. E colou. Mesmo que, pelo meio, os apoucados elementos da UNITA e FNLA, ora pró-China ou arregimentados de pacote do Tio Sam, fizessem número, sem incómodo de maior (as lutas intestinas viriam depois…) o MPLA passou, oficialmente, a precursor da luta armada pela independência da Angola, o que, hoje, parece não oferecer dúvidas.
Mas não foi assim que se fez, nem será assim que se escreverá a História. A História é, será sempre, testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado, como escreveu Cícero.
Sobre o assunto, ainda volto com o Commonwealth Plan…