Porca de Murça

É claro que hoje é mais conhecido o vinho, mas dantes todo o mundo sabia que o dito é honrado(a) como a porca de Murça, era o mesmo que dizer que esse alguém era da pior espécie e capaz de todas as vilanias e mais alguma.
Pois é: parece que a expressão teve por origem uma grande porca (com vossa licença!…) que, segundo reza uma lenda, por alturas do século VIII, assolou as terras e os termos da vila transmontana de Murça, onde proliferavam bastos ursos e javalis. Os senhores do lugar, ajudados por todo o povo da vila e das cercanias, tantas e tamanhas montarias fizeram que, ou extinguiram tão daninhas feras, ou escorraçaram-nas para bem longe. Resistiu, no entanto, uma enorme porca que havia de se tornar a amofinação e o terror do gentio em largo redor que, pela brutalidade e pela matreirice, sempre conseguia escapar aos caçadores.
Ora, diz a história, no ano 757, o senhor de Murça, cavaleiro de superior linhagem, grandes forças e destemida coragem, tomou a peito o mister de acabar com a porca. E, tais manhas e ardilezas empregou, que o conseguiu, libertando Murça de tão malvado bicho.
Em memória desta façanha construiu-se um monumento à porca de Murça, comprometendo-se os habitantes da vila, por si e por toda a sua descendência, a dar ao esforçado cavaleiro, em reconhecimento de tão grande benefício, para ele e para os seus herdeiros, até ao fim do mundo, três arráteis (1) de cera, em cada ano, por cada casa. E mais: o pagamento seria feito no foro, mesmo junto da estátua da porca.

Parece que, entretanto, em Murça, há muito já se passou para lá do até ao fim do mundo. Mas fica a história…
(1) arrátel é uma antiga medida de peso correspondente a 459 gramas.