sete alfaiates para matar uma aranha

Aplica-se este provérbio (embora hoje em dia em franco desuso) com o sentido de dizer que se faz muito espalhafato ou que se anda em muita azáfama por causa de muito pouco ou, num sentido mais prático, muito barulho para nada.
Curioso, no entanto, será saber onde o povo foi buscar este enunciado e a que propósito ele refere alfaiates. Talvez a explicação mais credível seja uma chocarreira história contada por José Diniz Moura, no seu livro Memória Histórica da Notável Vila de Niza, publicado pela primeira vez em 1855 e há alguns anos reeditada pela Imprensa Nacional.
A propósito das festas que ocorriam na vila, escreve José Moura: (…) e não se limitavam às récitas as nossas festas de algum dia, porque nelas figuravam ainda mais as entradas, danças e folias das artes e ofícios que os artistas executavam com muito primor e aplauso; e eram com mui pouca diferença como as que, em tempos remotos, se praticavam anualmente nas procissões do Corpo de Deus; descrevê-las-emos como as presenciámos no ano de 1828, último em que se fizeram.
Vinham os oficiais artistas muito compostos e preparados com as suas jalecas de chita e drogas de várias cores, calça branca e chapéus de palha com muitas fitas e laços e alguns com as suas máscaras, por serem mais vergonhosos e recatados, em duas fileiras e os que traziam insígnias e instrumentos no centro, to-dos mui contentes e alvorotados: na frente os alfaiates com as suas réguas e tesouras, e, chegando todos ao Rocio, e fazendo uma grande roda, começaram a desempenhar o seu papel, que consistia numa engraçada contra-dança e pantomina em roda de um cortiço, que ali já se achava, quando eles chegaram. Para ver a dança e gozar o divertimento foi saindo do cortiço uma enorme e feiíssima aranha que para estar mais à vontade e contente se colocou em cima dele, e aí ficou; mas reparando nela os dançantes, e sendo os alfaiates homens de pouco ânimo e valor, não puderam continuar a dança na presença de tão asqueroso e repugnante hóspede e trataram de o afugentar: vieram todos com as suas réguas e tesouras alçadas fazendo trejeitos e gaifonas, mas o peçonhento bicho, apenas os avistou, refugiou-se no profundo covil, com o que ficaram vexados e corridos os agressores, que imediatamente retiraram a seus lugares; e querendo continuar o folguedo, viram de novo o atrevido insecto, que do alto do baluarte os provocava a novo conflito, que os seus inimigos empreenderam com igual resultado; mas tanto foram e vieram que a pobrezinha teve de perecer vítima de uma cilada, que lhe armaram, ficando um dos mais corajosos emboscado junto ao forte, e cortando-a depois com a tesoura, quando ela mais se ufanava e ensoberbecia da sua vitória. Uma estrondosa aclamação dos circunstantes, e muitos foguetes anunciaram o final do divertimento dos primeiros artistas (…).
Real ou mera pantomina do autor, a verdade é que provavelmente aqui está a origem do ditado ao qual, diga-se, há alguns anos os alfaiates de Nisa até lhe deram uma expressão teatral…

Andam sete alfaiates
para matar uma aranha.
Fortes são os alfaiates
que nem isso eles apanham.

Vêm setenta alfaiates
todos postos em campanha
com as tesouras abertas
para matar uma aranha.

Setecentos alfaiates
e tudo: – Farei, farei!
Para matar uma aranha
gritam: – Aqui d’el-rei!

Vêm setenta alfaiates
quais soldados em campanha
tocam os sinos a rebate
para matar uma aranha.

Setecentos alfaiates
mas que gente tão estranha
a correr para todo o lado
à procura duma aranha

São sete mil alfaiates
e todos: “Farei, farei!”
para matar um aranha
gritam: “Aqui d’el-rei!

Setenta mil alfaiates
e é ver qual corre mais
para matar uma aranha
não são muitos. São demais.

Setecentos mil alfaiates
cada um com uma tesoira
sete milhões de alfaiates
cada qual com uma vassoira.

Setenta milhões de alfaiates
não se crê em tal façanha
que tantos valentes juntos
deixem fugir uma aranha.

e que vontade de por aqui continuar…

 

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(aranha quem tem arranha? Outra aranha)