como diz o outro

Como lá diz o outro, ou ainda, como dizia o outro.
A origem parece estar num episódio jocoso, mas imaginário, ocorrido em Espanha. D. Diego de Córdova, chamado à presença do rei Filipe II, apresentou-se acompanhado com um amigo que não foi admitido à audiência.
D. Diego, na conversa com o monarca, nas suas alegações acrescentava sempre, na parte final, as palavras como dijo el outro.
Tanto se repetiu que o monarca, intrigado, lhe perguntou quem era el outro.
D. Diego, ligeiro, abriu a porta fez entrar o companheiro, apresentando-o ao rei.
Como não foi possível encontrar uma raiz satisfatória para o uso deste axioma, não devemos excluir a hipótese da origem ser francesa.
A criação do império por Napoleão Bonaparte, com a sua parada de soldados espadeirando, incendiando e ladroando os diversos países da Europa, suscitou ódios tenazes mas também, curiosamente, firmes adesões. A França foi, portanto, durante todo  o século XVII, o século XVIII e os princípios do século XIX o alvo de todas as atenções.
A língua francesa, tendo-se tornado a língua da diplomacia, dos salões e da cultura em geral, naturalmente que influenciou e alterou a língua portuguesa com palavras, expressões e locuções recolhidas através da aprendizagem da língua, de leituras e de traduções de obras francesas.
No início século XIX já era conhecida a expressão comme dit l’autre, usada para apresentar ironicamente uma citação de alguém supostamente conhecido. Podemo-la encontrar em dicionário bilingue português de 1817, que realça a locução em linguagem popular, como o outro que diz, salientando a vulgaridade da citação.
Entre a hipótese espanhola e a francesa… venha o diabo e escolha.
Como diz o outro

 

 

 

(montes vêem paredes ouvem)

sapateiro, não vás além do chinelo!

Até tempos bem fundos da Idade Média, ser sapateiro era, genericamente, sinónimo de desajeitado, achamboirado, bronco, mas também inábil, idiota, deselegante e inconveniente. Em qualquer trabalho, conversa ou situação.
Este epíteto teria origem no canhestro que conserta, mal, o calçado, substituindo-se ao verdadeiro profissional? Ou será que a origem está na história do sapateiro que se deu ares de saber e se pôs a criticar um quadro de Apeles?
Narra a crónica de Plínio, o Velho, que Apeles, um dos maiores da Antiguidade, um dia, à sua porta, expôs um dos seus quadros, com a ideia de ouvir a opinião de quem passava. Escondido atrás da tela, ouviu o sapateiro que notou um defeito na sandália de uma das figuras principais do quadro. Apeles apressou-se a emendar o erro, mas, no dia seguinte, voltou o sapateiro que, ao ver o erro da sandália emendado, logo achou mais erros, agora numa perna, num braço ou nas vestes daquela figura e, depois, em outras.
O mestre apareceu-lhe e, sorrindo, terá dito ‘Sutor ne supra crepidam’, ou seja, não suba o sapateiro além da chinela.
É possível, aventam alguns cronistas, que Apeles apenas tivesse dito É um sapateiro, referindo-se ao improvisado e néscio critico. De uma ou de outra forma, o sentido não se altera, classificando assim os maus ou imperfeitos artífices, mas, também, por extrapolação, os que se metem por caminhos ou a falar do que não sabem.
Como, por exemplo, pôr-se o sapateiro de Apeles a tocar rabecão: Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão!…

 

 

 

(quem é só sapateiro, não toque rabecão)