ferradura (achar uma)


É geralmente conhecida a crença popular de que uma ferradura abandonada traz felicidade ou acrescidos favores a quem a encontre.
Qual será, e de onde veio, a origem desta fermença do povo?
O costume de ferrar os cavalos remonta, sabe-se, a muitos séculos antes da era cristã. Na Roma antiga, porém, era hábito de alguns homens ricos, mandar ferrar os seus corcéis com ferraduras de prata, ou mesmo de ouro. A surpresa era, portanto, bem agradável para aqueles que achavam um desses objectos, perdidos no pó das estradas.
Provém daí a sorte em achar uma ferradura.
Curioso referir, a propósito, que quando Duncaster, embaixador da Inglaterra em França, fez a sua entrada em Paris, em Março de 1626, ordenou que o seu cavalo, calçado de prata, fosse tão mal ferrado que, de vez em quando, uma das ferraduras se perdesse. Um ferrador, que figurava no séquito de Duncaster, imediatamente aplicava nova ferradura ao cavalo. O lord queria, desse modo, mostrar à população parisiense que eram vastos os seus haveres e larga a sua generosidade…

 

 

 

(um ferrado dura, quando se dá uma no cravo e outra na ferradura)

600 anos

(…) a quantos esta Carta virem fazemos saber quem em o llogar que chamam loordello
que he terra de Bouças (…) os ditos marinheiros
possam en ela fazer a dicta igreja sem outro embargo nenhum (…)

Em 1405, o rei D. João I, o bispo do Porto, que na altura era D. Gil de Almada, e um procurador do Cabido, reuniram-se em Montemor-o-Novo para assinarem um acordo no qual o bispo cedia todos os direitos administrativos sobre a cidade (direitos que a Igreja mantinha desde que D. Teresa, mulher do primeiro rei, deles fizera doação ao bispo D. Hugo há 286 anos atrás) e D. João I, de forma compensatória, pagaria à Sé ‘três mil libras de antiga moeda ou trezentas mil da moeda de agora’.Era o culminar de longas lutas e quezílias, protestos, prisões e algum sangue derramado contra o que se escreveu de ‘prepotência e insaciável ganância dos bispos, como senhores absolutos do burgo’. As negociações do bispo com o Rei duraram quase um ano. Este tempo medeia também o que foi de necessário para que o acordo merecesse a aprovação de Inocêncio IV, sucessor de Pedro na cadeira de Roma, de tal forma que só em 13 de Abril de 1408 os portuenses passaram a ser senhores do seu próprio destino, bem à margem dos ditames da Igreja. Curioso referir que, também neste ano –embora não seja possível determinar o mês– se comemoram 600 anos sobre a edificação da pequena capela de Santa Catarina erigida num dos mais altos cerros da margem direita do Douro, junto à foz, sobranceiro às ‘taracenas do Ouro’. Anos antes, os pescadores da zona ribeirinha pediram ao Rei um terreno para construir uma capela onde pudessem venerar Santa Catarina, sua padroeira (esta mártir da Igreja, cujo culto estava muito enraizado no coração dos marinheiros por quase toda a Europa, nasceu na Alexandria e estudou Filosofia e Teologia. O imperador Maximiano, impressionado com a sua beleza, propôs-lhe casamento que ela recusou argumentando que o seu noivo era Jesus. A recusa valeu-lhe a prisão e ser fustigada e, mais tarde, o suplício das navalhas. Conta a lenda que as navalhas, atadas a uma roda que pelo movimento iriam dilacerando o corpo dos supliciados, se partiam à medida que se iam aproximando do corpo da jovem. Acabaria por ser degolada). O rei D. João I cedeu aos pedidos dos marinheiros e, assim, os pescadores do Douro puderam satisfazer a sua vontade. Em meados do século XV, as taracenas do Ouro era um lugar ermo e bem longe das muralhas do burgo. Hoje é parte integrante da cidade e é um dos seus mais belos miradouros(1).
Provavelmente foi com a vista que de lá se disfruta que António Sardinha, olhando as margens do Douro abraçadas ao mar, disse, ‘…é terra ainda, mas já pertence ao mar’. A pequena ermida, que durante longos anos serviu de baliza aos barcos que demandavam o Douro, de linhas simples, é das poucas memória reais que a Cidade guarda dos tempos dos estaleiros do Douro, das naus, dos galeões e dos barineis que, depois de Ceuta e Arzila, iriam mar fora além das Áfricas e das Américas ou das Indias…
(1) – quem de fora aqui vier e quiser cicerone para lá chegar é só dizer!