as flores que nós (não) queremos

1 de Maio de 1974

 

(…) era o dia de cantar (…)





” Já tínhamos cravos, rosas e papoilas, mas não eram verdadeiramente flores. Brotavam nos campos, irrompiam nos jardins, floriam nos quintais, com o aroma impregnado do sangue e do suor de quem as arrancava à terra de sol a sol, à terra que via o homem trabalhar, sabe Deus para quê e para quem.
Germinaram, agora, de chofre, em todo o seu esplendor, no cano de uma espingarda resgatadora. Pulularam nas mãos de um povo que, entre beijos, abraços e lágrimas de sã alegria, escolheu o cravo e a papoila, arvorando-as em porta-vozes da mais lídima Liberdade.
Flores que entre o abraço ao soldado e o beijo a uma criança, apadrinharam o despertar de um mundo novo.
Flores! Cultivem-nas. Acarinhem-nas. Dêem-lhes água de todas as fontes e de todos os dias. Reguem-nas com o vosso trabalho e com a vossa amizade. Não as deixem morrer, nunca. Os cravos e as papoilas que ontem vimos são as flores que nós queremos. “

(Lisboa, 2 de Maio de 1974, Simões Ilharco, jornalista do Diário de Notícias)
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