contos populares portugueses – I
as adivinhas em anexins

Um rei quis experimentar o juízo de três conselheiros que tinha, e indo a passear com eles encontrou um velho a trabalhar num campo, e saudou-o:
– Muita neve vai na serra!
Respondeu o velho com a cara alegre:
– Já, senhor, é tempo dela.
Os conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era Verão, e não percebiam o que o velho e o rei queriam dizer na sua.
O rei fez-lhe outra pergunta:
– Quantas vezes te ardeu a casa?
– Já, senhor, por duas vezes.
– E quantas contas ser depenado?
– Ainda me faltam três vezes.
Mais pasmados ficaram os conselheiros; o rei disse para o velho:
– Pois se cá te vierem três patos, depena-os tu.
– Depenarei, real senhor, porque assim o manda.
O rei seguiu seu caminho a mofar da sabedoria dos conselheiros, e que os ia despedir do seu serviço se lhe não soubessem explicar a conversa que tivera com o velho. Eles, querendo campar(1) por espertos, foram ter com o velho para explicar a conversa; o velho respondeu:
– Explico tudo, mas só se se despirem e me derem a roupa e o dinheiro que trazem. Não tiveram outro remédio senão obedecer.
O velho disse:
– Olhem : Muita neve vai na serra, é porque eu estou cheio de cabelos brancos; já é tempo dela, é porque tenho idade para isso. Quantas vezes me ardeu a casa? é porque diz lá o ditado Quantas vezes te ardeu a casa? Quantas casei a filha. E como já casei duas filhas sei o que isso custa. E quantas vezes conto ser depenado? é que ainda tenho três filhas solteiras e lá diz o outro Quem casa filha depenado fica.
Agora os três patos que me mandou o rei são vossas mercês, que se despiram e me deram os fatos para explicar-lhes tudo.
Os conselheiros do rei iam-se zangando, quando o rei apareceu, e disse que se eles quisessem voltar para o palácio vestidos, que se haviam ali obrigar a darem três dotes bons para o casamento das outras três filhas solteiras do velho lavrador.
(1) O mesmo que ufanar, bazofiar
(Contos Populares Portuguezes, 1879)
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