dar a mão à palmatória

Talvez já sejam poucos os que se lembram dela. Da palmatória, a maria-vitória – uma espécie de colher em madeira, espalmada, redonda, larga e grossa, com uns furos – que era altíssima e terrifica presença em todas as escolas do país e que os professores usavam, com mais ou menos insensibilidade pelo horror e dor dos pobres alunos, para distribuir umas quantas palmatoadas (o número era proporcional ao conceito aplicado sobre a asneira…), sobre as mãos, ao som de gritos, choros, profundas e sacudidas fungadelas. Até me arrepio…
(…) escanifrado, metido a pele e osso, o professor Tomé levava consigo o brado de render a guarda dos tempos da tropa, isso e um certo tremelico na mão ao pegar no seu instrumento predilecto, desde manhã até à tarde. A aula, que principiava às nove da manhã e acabava às cinco da tarde, parecia a homenagem ao herói morto em combate. Era fuzilaria em cima de fuzilaria. Bordoada por tudo e por nada: mexeu-se ou coçou a perna, cotovelo no tampo da carteira ou dedo no nariz, veio tarde ou chegou cedo, sabia a lição toda ou mandriou os deveres. As palmatoadas eram medidas ao talhe da delinquência que o mestre Tomé se lembrava de apontar aos ganapos. Puxão da orelha, cachaçada, sopapo ou vergastada de cana, a coisa, diversa e à escolha do carrasco, podia ter uma ou meia dúzia de repetições. A quinta-essência era a menina-de-cinco-olhos, a santa-luzia – ó Santa Luzia milagreira, não haverá jeito de lhe envesgar o olho ao apontar?… – como havia quem lhe chamasse. Para os madraços, ui!, era tal o fartote, que os havia que já tinham as palmas da mão calejadas (…), lembram-se aí, amigos Vasco e Diana?
Bom, o nome da dita, ao contrário do que se possa pensar no imediato, nada tem a ver com a palma da mão (onde era aplicado o castigo), já que palma significa palmeira, na sua origem latina. Dessa árvore, isso sim, fazia-se a palmatória férula, uma espécie de cana que, na época romana, era usada para infligir castigos físicos.
Ou seja: por aqui ou por ali a especialização já era bem antiga…

 

 

 

(nunca o castigo tarde a quem o tempo avise e não se guarde)

fazer colheres

Quem se entretém com trabalhos de pouco interesse ou utilidade, quem, afinal, não faz nada, diz-se que faz colheres, o que também pode ser compreendido como um modo de passar (ou matar) o tempo
Matar o tempo era, muito provavelmente, o que antigamente faziam os pastores enquanto o gado pastoreava por perto. E a forma mais tradicional de o fazerem era construindo flautas de cana ou madeira ou, então, com os mesmos materiais (havia uma ou outra possível substância de trabalho, nomeadamente o chifre ou osso), entretinham-se a fazer colheres, sobretudo as conhecidas e ainda usadas… de pau.

 

 

 

(quem não sabe o que fazer, faz colheres;
quem não tem nada que fazer, faz colheres
)