Lumiar

A razão por que foi dado o nome de Lumiar ao lugar (outrora um pitoresco arrabalde de Lisboa) um pouco abaixo do Campo Grande é muito curiosa e, certamente, conhecida por muito pouca gente.
Conta-se que quando D. João V fazia as suas frequentes visitas ao Convento de Odivelas, de tão escandalosas memórias, ao passar pelo lugar que hoje se chama Lumiar, era quase sempre esperado por um pelitrate velho que procurava aproximar-se-lhe, não conseguindo, no entanto, chamar a atenção do rei magnânimo, que ia engolfado nas antevisões dos seus lascivos encontros com a Madre Paula. Ou outras, que poucas não foram.

Um dia, porém, um fidalguete que o acompanhava fez-lhe notar o pobre homem, assegurando-lhe que o velho apenas pretendia dizer duas palavras. Na verdade, o pedinte, que mais não pretendia do que implorar a caridade régia – pois de guarida apenas tinha um miserável e pequeno tugúrio onde tudo faltava – vendo-se forçado a usar apenas duas palavras, murmurou timidamente, ao rei:
Enregelo, asfixio
 O rei, bem mais atolado nas altas façanhas lhe pejavam as majestosas atenções, sem qualquer outra intenção que não aproveitar a ocasião para uma tirada de péssimo gosto, falou-lhe, sorrindo:
Então é fácil... lume e ar!
 E lá seguiu o seu caminho, deixando o inditoso ancião sem, ao menos naquela noite, uma moeda com que pudesse arranjar modo de aquecer o corpo entorpecido.
Daí em diante, como tivesse sido divulgada a insulsa graçola real, ao local onde o caso se passara começou a ser conhecido com o nome de Lumiar.
(na gravura, de 1805, o Chafariz das Mouras, na antiga Estrada do Lumiar)

(ver Nem sempre galinha, nem sempre rainha)

 

 

 

 

(quem for rei nem sempre tem majestade)