sapateiro, não vás além do chinelo!

Até tempos bem fundos da Idade Média, ser sapateiro era, genericamente, sinónimo de desajeitado, achamboirado, bronco, mas também inábil, idiota, deselegante e inconveniente. Em qualquer trabalho, conversa ou situação.
Este epíteto teria origem no canhestro que conserta, mal, o calçado, substituindo-se ao verdadeiro profissional? Ou será que a origem está na história do sapateiro que se deu ares de saber e se pôs a criticar um quadro de Apeles?
Narra a crónica de Plínio, o Velho, que Apeles, um dos maiores da Antiguidade, um dia, à sua porta, expôs um dos seus quadros, com a ideia de ouvir a opinião de quem passava. Escondido atrás da tela, ouviu o sapateiro que notou um defeito na sandália de uma das figuras principais do quadro. Apeles apressou-se a emendar o erro, mas, no dia seguinte, voltou o sapateiro que, ao ver o erro da sandália emendado, logo achou mais erros, agora numa perna, num braço ou nas vestes daquela figura e, depois, em outras.
O mestre apareceu-lhe e, sorrindo, terá dito ‘Sutor ne supra crepidam’, ou seja, não suba o sapateiro além da chinela.
É possível, aventam alguns cronistas, que Apeles apenas tivesse dito É um sapateiro, referindo-se ao improvisado e néscio critico. De uma ou de outra forma, o sentido não se altera, classificando assim os maus ou imperfeitos artífices, mas, também, por extrapolação, os que se metem por caminhos ou a falar do que não sabem.
Como, por exemplo, pôr-se o sapateiro de Apeles a tocar rabecão: Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão!…

 

 

 

(quem é só sapateiro, não toque rabecão)