a fábula dos pardais…

Tendo o ninho ao pé da eira
do senhor José Morgado,
um pardal e a companheira
com quem estava acasalado,
deixavam o seu lugar
e, se havia grão exposto,
tratavam de o debicar,
contentinhos que era um gosto.

Havia perto um couval
luzento, verde, mimoso,
onde o citado pardal,
como era muito guloso,
catava larvas, insectos,
com a dita pardalinha,
trocando com ela afectos
com o que muito se entretinha.

José Morgado, espreitando
da janela do rés-do-chão,
via os dois de vez em quando
na eira, papando o grão.
Arremessava pedradas,
perseguia-os com furor,
mas todas eram baldadas,
que eles faziam pior.

Até que um dia, já farto,
foi buscar a caçadeira
atrás da porta do quarto,
e pôs-se à espreita, na eira.
Chegou o par descuidado
e o Morgado, catrapus!
Caíram ambos de lado!
Nem disseram ai-jesus!

De aí dois a três dias
começaram a murchar
as tais couves luzidias,
galegas e de cortar.
-‘Deu-me na horta a lagarta!’
disse, zangado, o José.
‘Ora esta! Uma raio a parta,
não me deixa nem um pé’

E por mais coisas que fez,
por mais remédios, em suma,
de aí a coisa de um mês
não tinha couve nenhuma.
Lembrou-se então dos pardais
com certa melancolia!…
Mas já era tarde de mais,
já de nada lhe valia!

Eis a história dos pardais,
da lagarta ou do grão,
na qual, se bem atentais,
achareis uma lição.
É muito conveniente,
quando se vê um defeito,
reparar se juntamente
não haverá algum proveito…
.

mulher

Não que faça apologias das festividades comerciais dos dias que se inventam a esmo para uns e a proveito para outros, mas valha a verdade que este vem mesmo a propósito…
E a propósito de uma curiosa quadra popular, muito em voga no Brasil nos começos do século passado e que se supõe ser de origem portuguesa, mas levada para ali por africanos, no tempo da escravatura.
A quadra, respeitando a escrita e o linguajar da época, é…

Dizem que muyé é farça,
tam farça como papé;
mas quem vendéu Jesus Christo
foi home, não foi muyé.

Claro que a quadra, em português actual e sem a raiz que lhe é nativa, perde as rimas e o quebranto; mas a sentença, essa, fica…

Dizem que mulher é falsa,
tão falsa como o papel;
mas quem vendeu Jesus Cristo
foi homem, não foi mulher.