o sonho falhado

Afora os sessenta anos do domínio filipino, Portugal passou por várias contingências que ameaçaram a sua independência. Ao contrário, houve um único momento na história portuguesa em que diversos factores se propiciavam para a união dos dois reinos ibéricos, mas desta feita, com a soberania portuguesa. E, curiosamente, foi uma simples postura de verticalidade e honra de um escudeiro que fez desmoronar tal hipótese.
A história desse episódio, pouco conhecido, é assim, contada por Vasco Geraldes, na sua crónica sobre o Príncipe Perfeito, em 1680:
‘Por morte de seu filho, o príncipe D. Afonso 1, – que morreu em consequência de uma queda do cavalo – D. João II procurou fazer suceder-lhe no trono, D. Jorge 2, seu filho natural; e para lhe preparar os apoios que lhe garantissem a sucessão, pensou casa-lo em Castela, pedindo a mão de uma filha dos Reis Católicos, Isabel e Fernando.
Para isso enviou a Castela, Lourenço da Cunha, seu fiel escudeiro, munido de instruções particulares, e em quem o monarca depositava a maior confiança. Ambos sabiam que a empresa não era fácil, pois Isabel, que era uma mulher muito inteligente, tinha uma grande habilidade política e orgulho régio inteiramente à altura do nível em que se firmava o seu trono. Todavia, as perspectivas que o rei português preparava para o seu filho, e o esplendor da coroa que lhe destinava, eram fundamento bastante para ele admitir realizável aquilo que, em segredo, incumbia ao seu embaixador.
Quando Lourenço da Cunha chegou a Castela, encontrou o rei doente e não pode acercar-se dele; mas como Isabel expedia todos os negócios do reino, obtida a audiência particular da rainha, entregou a esta a carta manuscrita e selada do soberano, na qual se propunha que, deixando este reino ao senhor D. Jorge, seu filho, mandava pedir a sua alteza a rainha D. Isabel, para mulher dele a infanta D. Catarina, sua filha mais moça.
A rainha leu, e sem buscar mais aviso, respondeu que ‘a infanta D. Catarina, não; mas que el-rei D. Fernando tinha filha bastarda, e que esta sim, lha daria’.
Havemos de convir que a rainha respondeu galhardamente, como quem era, e que o embaixador português devia ter tido um momento mau, daqueles em que, segundo o nosso pitoresco dizer, se fica ‘engolindo em seco’. Mas Lourenço da Cunha, depressa cobrou a serenidade, que nunca lhe faltou em outras grandes ocasiões e, com prontidão igual à da rainha, respondeu-lhe ‘Senhora, el-rei D. João, meu senhor não pretende assim aparentar-se com el-rei vosso esposo, como tanto com vossa alteza, e assim… se vossa alteza tem sua outra filha bastarda, ele a aceitará para seu filho’.
Do que a rainha de Castela disse ou fez, não há crónicas que rezem. Lourenço da Cunha voltou para Lisboa, com o negócio desfeito neste pé. E apesar de se lhe terem frustrado, por tal maneira, as negociações de que o rei o encarregara, este fez mercê de lhe dar as comendas de Beja, Serpa e Moura… pela resposta.

1 – O príncipe Afonso de Portugal, prometido desde o berço a Isabel de Aragão, morreria na sequência de uma (muito) estranha queda de um cavalo, em 1491.
2 – D. Jorge de Lencastre, filho bastardo de D. João II e de Ana Mendonça, foi educado por Joana de Portugal, conhecida por Santa Joana Princesa (embora a Igreja Católica apenas a reconheça como Beata), irmã do rei D. João II, nunca chegou a ser legitimado, porventura na sequência da embrulhada com o Tratado de Tordesilhas, depois de recusar a viagem a Cristóvão Colombo.

assim começou o Cinema em Portugal

No dia 18 de Junho de 1896, os lisboetas puderam assistir no Real Coliseu de Lisboa da rua da Palma, entre outras atracções anunciadas em cartaz, à estreia do Animatógrafo, uma série de quadros de fotografias animadas que o projeccionista Edwin Rousby, trazido pelo empresário António Manuel dos Santos Júnior, andava a exibir nas principais cidades da Europa. Este dia ficou nos anais do espectáculo em Portugal como a data das primeiras imagens cinematográficas projectadas no nosso país. Numa das sessões apresentadas depois no Porto, encontrava-se o portuense Aurélio da Paz dos Reis. Este conhecido floricultor e fotógrafo amador ficou tão entusiasmado com o que viu que, em Agosto desse ano, partiu para França e de lá trouxe uma máquina de filmar e projectar.
A 12 de Novembro de 1896, com a primeira sessão comercial de documentários realizados por ele, começou a história do cinema português. Os filmes exibidos mostravam episódios da vida portuguesa, que ficariam como, de facto, os primeiros filmes nacionais: Cenas de Rua (a rua do Ouro, em Lisboa), Feiras (a feira do Gado na Corujeira), Folclore (o jogo do pau) e A Saída da Fábrica (saída do pessoal operário da Fábrica Confiança, este uma imitação do filme dos Lumiêre La Sortie des Usines de Lyon).
Em 1904, é inaugurado o Salão Ideal, no Loreto, em Lisboa, a primeira sala destinada exclusivamente à exibição cinematográfica com sessões regulares. O seu proprietário, Júlio Costa, contratava pessoas para falarem por trás do écran durante a exibição das películas. Era uma espécie de ‘cinema sonoro’, um êxito que, consecutivamente, enchia a sala de cinema.
O primeiro filme verdadeiramente sonoro feito em Portugal por portugueses só viria a ser realizado cm 1933 pela Tobis Portuguesa. Foi a Canção de Lisboa, interpretado por Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva, entre outros, Este filme marcou também o início de um género cómico – uma mistura do teatro de ‘vaudeville’ com a revista à portuguesa – que foi adaptado com grande êxito pelos nossos cineastas em filmes realizados na década de 40 (entre eles, O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro, O Pátio das Cantigas, de Francisco Ribeiro, e O Leão da Estrela, de Arthur Duarte), que ainda hoje fazem as delícias dos espectadores portugueses.