dia dos namorados

Nos meados do século XIX, na Livraria de João E. da Cruz Coutinho, Editor vendia-se O Novissimo Conselheiro dos Amantes, com tudo quanto os enamorados precisavam para dar alento aos seus mais frementes sentimentos, mesmo se quisessem dar um tom chocarreiro à declaração de amor, como se vê no Capítulo de Diferentes Modelos de Cartas Amorosas
Menina,
Digo-lhe e dir-lhe-ia sempre que Vossa Mercê é a mais bonita carinha de todas as que tenho visto. Na sua mão está que eu lhe tribute as mais requintadas finezas.
Mas se Vossa Mercê se fizer arisca e de manto de seda, então mau grado meu tornar-me-ei bronco e tacanho, que Deus o testemunhe. De folgazão que era com os meus amigos e com toda a gente, fugirei a uns e a outros como o diabo foge da cruz, darei comigo em cima de uma enxerga, e espicharei, definhado por amoroso martírio; e os gatos pingados depois de me levarem no caixão ao cemitério, deitar-me-ão à cova, a qual repleta de terra reproduzirá depois óptimos nabos, repolhos e brócolos que o coveiro venderá às carradas nos mercados públicos.
Mas vamos ao que importa: olhe, menina, o meu peito é um Vesúvio, é um Etna que vomita ardentes labaredas, e não sabe Vossa Mercê por quem? Por essa airosa pessoinha, por esse rostinho de camafeu. Então que lhe parece esta estrambólica declaração? Pois eu afirmo-lhe que é sincera, sinceríssima. Cá pus de meu lado no meu cubículo três garrafas de vinho, mas que vinho!… É mais superlativo que o néctar dos deuses. Uma contém vinho do Porto, outra da Madeira e a outra de Champanhe. Oh! Que gáudio! Venha, venha minha querida menina e traga consigo a sua amiga Mariana; humedeceremos todos, os gorgomilos e cantaremos depois em honra de Baco, que gosta muito de modinhas. Adeus amorzinho, até à vista.
Reconheça-me por seu desnorteado, este que se assina
Sou…

 

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