túmulo dos dois irmãos

Em plena avenida Conde Sucena, em S. Pedro de Sintra, encostado perpendicularmente a um muro, encontra-se um velho túmulo de pedra. Ao lado, incrustada no muro, uma placa onde se pode ler ‘Túmulo dos dois irmãos, monumento medieval restaurado em 1976 pela Câmara Municipal de Sintra’.
Que túmulo é este, numa avenida, com a particularidade de parecer indicar não ser uma sepultura individual?…

Provavelmente, este sepulcro datará de meados do século XV, a fazer fé em duas curiosas litografias, Route de Cintra e Croquis de Cintra, ambas publicadas em 1840. A primeira delas, inclusive, faz uma detalhada descrição deste túmulo que desde a sua feitura até aos tempos de hoje, naturalmente, sofreu várias e importantes alterações e mutilações: ‘tem duas cabeceiras nas extremidades, ambas com emblemas da cruz voltados para lados opostos; as cruzes são iguais e reproduzem o tipo românico; na sua extremidade norte existe ainda, sobre a campa, um pequeno pedestal circular com um ou dois degraus e a mecha central. A tampa tem três faces e é sensivelmente rectangular; a face plana, que é a central, tem em relevo, ao longo, uma cruz esculpida, com base e emblema. De cabeceira a cabeceira, por dentro, mede cerca de um metro e setenta e a cruz, com a sua base, cerca de um metro e sessenta. As cabeceiras, pela face interna são lisas; na externa está esculpida uma cruz em relevo. Um cruzeiro ficava do lado oposto à cruz esculpida na tumba.’
O desaparecimento do cruzeiro devia ter acontecido por alturas dessas publicações já que ainda dele existe uma gravura em Route de Cintra.
A este túmulo estão ligadas curiosas e românticas lendas que, embora divergindo no seu conteúdo (pelo menos há três versões diferentes…) coincidem no facto de ali terem sido sepultadas duas pessoas, que morreram em circunstâncias particularmente dramáticas. O Visconde de Juromenha, conta uma das lendas, o conhecido dramaturgo D. João da Câmara escreveu um conto inspirado nessa mesma lenda, alterando-lhe alguns aspectos e, ainda, um guia turístico dos finais do século XIX, encontra forma de contar uma outra versão da mesma lenda.
No cerne da história trata-se da paixão de dois irmãos pela mesma mulher, sem suspeitarem desse comum ardor. Uma fatídica noite, ambos se encontraram sob a janela da mulher amada. Narrava assim D. João da Câmara: ‘ Um deles avistou um vulto sob a janela. Deu um grito a que a mulher respondeu com outro, que logo lhe morreu abafado na garganta. Ainda ela ouviu as espadas a tilintarem faiscando, quis chamar por socorro, mas caiu desmaiada, ouvindo aquele a quem mais queria no mundo exclamar num arranco: -Deus tenha compaixão da minha alma! Irmão! Irmão!…, gritou o guerreiro, ao reconhecer pela voz quem atravessara com a sua espada. E deixando-se cair sobre a sua própria lâmina, os dois só tiveram tempo para com os lábios convulsos trocarem um beijo e um perdão. A sepultura juntou o que o amor desunira’.
Bom, mas a verdade é que, três ou trezentas que sejam as lendas (e, pelos vistos, todas coincidentes no facto de ali se achar um dupla sepultura), elas não passam disso mesmo: de lendas.
A 7 de Abril de 1830, ‘por ordem expressa de El Rei Nosso Senhor’ (no caso, D. Miguel), o túmulo foi aberto. No auto então lavrado, diz-se que ‘foi examinado a Vacuo (sic) daquelle Monumento, e indicando logo ser antigo Mauzoleo de hum indivíduo, assim se achou como verídico, pelos ossos que no fundo se encontrarão’. Ora a contradição leva-nos, como aconselham os estudiosos da matéria, a que se procure descobrir o veio de verdade quando se está perante uma destas manifestações histórico-literárias. Como é o caso.
Se considerarmos a evidente anomalia que o túmulo apresenta, ou seja, o facto de possuir duas cabeceiras sepulcrais, poder-se-á admitir ser essa a base real de todas as histórias que o envolvem. A verdade é que era comum esse tipo de túmulos mas, cada cabeceira correspondia apenas a uma sepultura, conforme foi posto a descoberto em alguns cemitérios na região. O facto de se estar perante um túmulo com duas cabeceiras, pensou-se que tal anomalia se devia ao facto de estarem ali sepultados dois corpos. E assim surgiram as lendas.

Mas… se as duas cabeceiras não resultam do facto de estarem ali dois corpos, como se explica, então, a anomalia? Que significado pode ter?
Em dois documentos, um do século XVI, outro do século seguinte e respeitantes, ao que tudo indica, a este túmulo, então talvez se encontre a resposta…
Num dos documentos, de 1598, regista que a Misericórdia de Sintra resolveu ‘que se concerte o moimento dos lázaros que está no Ramalhão por ser memória dos lázaros que estam nelle sepultados’. Já em 1673, também a mesma Mesa da Misericórdia determinou mandar ‘por hua cruz de pedra na sepultura dos Lázaros que está na estrada de Lisboa junto ao Ramalhão’.
Estes dois documentos, especialmente o primeiro, parecem claros: tratava-se de um túmulo colectivo destinado a sepultar os mortos da leprosaria de Sintra. E daí a singularidade das duas cabeceiras, que, em vez de indicarem a existência de dois corpos, indicavam o seu carácter colectivo. Mas… como explicar que ao abrir-se o túmulo, só se encontrassem os restos ósseos de um único indivíduo? Admite-se que era prática, na altura, que cada vez que aí era sepultado um corpo, limpassem o túmulo dos restos mortais do cadáver anterior…
Concluindo poder-se-á admitir com bastante probabilidade de acerto que as narrativas respeitantes ao túmulo chamado dos Dois Irmãos, são certamente lendárias, que essas lendas tiveram origem na circunstância da sepultura ostentar duas cabeceiras discóides, quando os sepulcros costumavam ter, cada um, apenas uma e, finalmente, este túmulo teria duas cabeceiras por se tratar de um túmulo colectivo destinado aos mortos provenientes da gafaria de Sintra.
Resta uma última questão: e por quê está ele ali, só?
Creio não haver grandes certezas, no entanto, sabe-se que antes de estar ali já teria tido outras localizações, sendo que, inicialmente, se encontraria como outros semelhantes, num primitivo cemitério de leprosos que teria sido demolido há mais de quatro séculos…
(o reconhecido agradecimento pela colaboração fotográfica de APC)

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