uma mão lava a outra

O mais evidente no pressuposto inicial deste postulado é que uma mão… não se lava sozinha.
De onde surge uma apropriada alegoria e incitamento à solidariedade. A ajuda mútua, principio que, entre nós, tão generosos e proveitos resultados deu nas aldeias comunitárias, das quais alguns ainda têm memória de Vilarinho da Furna ou Rio de Onor (Rihonor de Castilla, que é dizer o mesmo).
O modo de alegar o postulado pode ser feito (e foi) mostrado pela face inversa.
Acredita-se que a referência original esteja na obra Satyricon, talvez escrita em meados do séc. I, d.C., por Tito Petrônio Árbitro, mestre da prosa mordaz e crítica aos costumes e política sobre a Roma dos tempos de Nero, ambiência que ele retrata de modo tão zombeteiro como solene para, muitas vezes, resvalar para artifícios retóricos maliciosos e vulgares demais.
É essa trama, tão decadente como violenta, que Frederico Felini (1920-1994) retrata através de um trio de rapazes envoltos numa alucinada paixão (Satyricon, 1969). Seja por Petrôneo ou por Felini, a civilização ocidental sai brutalmente enxovalhada: apesar de vinte séculos os separarem, ambos apontam que a maior falta é justamente a solidariedade.
Amanhã será melhor, há-de sempre dizer o optimista. Talvez por isso, do aforismo, tivesse nascido outro:
Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

 

 

 

(juntam-se seis para ajudar seis e o peso vai parecer de três)

a Justiça
mas calma!… com mais de 400 anos.

Noticia a Gazeta de Lisboa que a senhora Antónia da Costa foi a casa de um corregedor da cidade para tratar de um negócio de família, e como nesse ano (a notícia é de 1607) se ‘estava cumprindo a pragmatica contra o luxo’, um alcaide abelhudo atreveu-se a querer levantar as saias à senhora Antónia da Costa, para modos de verificar se ela trazia rendas proibidas pela pragmatica. A mulher, que tinha brios, pespegou na face do alcaide uma boa bofetada. O corregedor, tendo conhecimento do caso, condenou a mulher por usar rendas, e pela bofetada no alcaide. A ofendida recorreu para a relação e os juízes proferiram a seguinte sentença, bem sentenciosa, por sinal:
Acordam em Relação: – Não é bem julgado pelo corregedor Francisco Gomes Loureiro condenar a ré Antónia Costa em 4.000 réis para captivos e alcaide, pelas barras do manteo, por quanto não houve fé de escrivão que lhas visse; e outro si não foi por ele bem julgado condenar a ré em 5.000 réis pela bofetada dada no alcaide, por quanto foi bem dada pela defensão da sua honra. Revogando sua sentença por todos os seus fundamentos e o mais dos autos, visto como se mostra a ré ser mulher casada e honrada, assim por sua pessoa como por seu marido, mostra-se mais ser o alcaide tão desacatado, com tão pouco senso, que quis levantar a saia a uma mulher casada, o que se não sofre. Absolvem a ré dos 4.000 réis da cadeia, e condenam ao alcaide em 2.000 réis para os seus captivos e nas custas que ela e seu marido fizeram; e outro si a absolvem da bofetada que deu, muito bem merecida, ao alcaide por este ser mal ensinado. E vós, corregedor, para que outro dia saibais atentar pela honra das mulheres que forem a vossa casa, vos condenam em 4.000 réis para as despesas da relação, e outro dia vos não aconteça fazer outra tal, porque o ha-de saber Sua Magestade, e então não passareis com 4.000 réis de pena.
Lisboa, Relação, 23 de Agosto de 1607, – Gaspar Lançarote Leitão.