Pedro Hispano

(hoje) há 730 anos…

Das funduras da Idade Média há um nome português que se destaca. Curiosamente, um clérigo. Formado em medicina, granjeou fama e respeito de todas as universidades da Europa, de seu nome Pedro Julião, embora na História houvesse ficado mais conhecido por… Pedro Hispano.

Em 1217, Lisboa era já uma urbe com importante movimento de mercadores, ainda à mistura com vastas raízes daquela mourama que Afonso Henriques havia escorraçado a golpes de espada. Numa modesta casa da freguesia de S. Julião, nasceu Pedro, filho do médico Julião Rebelo e de Teresa Gil. Mais tarde havia de estudar na Escola Catedral de Lisboa, onde se ordenou clérigo e, protegido pela estima de D. Mateus, bispo de Lisboa, o jovem presbítero deixou Lisboa, abalou para Paris onde aprendeu com os mestres de Física e Medicina. Depois ruma até Sicília para escutar as lições do Mestre Teodoro, físico de renome mundial. Para trás deixa, no entanto, o apreço e a admiração de João de Parma e Guilherme Shyreswwod, além da exaltação do seu saber feita por Bacon.
Vamos encontrá-lo, por volta de 1249, em Siena, nas suas funções de lente e estudando profundamente a filosofia aristotélica. É dessa época o Summulae Logicales, um notável compêndio de lógica que, imediatamente, conquista a celebridade, ao ponto de o próprio Kant o indicar como uma imprescindível referência. Seguir-se-ia uma outra obra, esta versando medicina, o Dieta morborum vulneratorum que, também, depressa passou a ser consulta obrigatória de todos os médicos, por toda a Europa.
Conhece o Papa Gregório X e, antes do concílio ecuménico de Lião, recebe o título de cardeal e o de bispo de Frascati. Gregório X pede-lhe um tratado de medicina no qual fosse simplificado o receituário e, em breve, Pedro Hispano escreve o Thesauros pauperum, considerado a obra mais valiosa da Idade Média.
A 13 de Setembro de 1278, por deliberação de uma assembleia de cardeais, Pedro Hispano é eleito Papa e o mundo cristão passa a conhecê-lo pelo nome pontifical de João XXI. As crónicas referentes ao seu curto papado de oito meses, mostram-no subtil no trato diplomático e profundamente interessado no saber humano: levou as suas censuras até ao trono de Eduardo I, de Inglaterra, obrigou Filipe III, de França, a fazer a paz com Afonso X, de Castela, enviou emissários até à Tartária e fez os possíveis por criar e fortalecer a união das igrejas Grega e Romana.
A morte suspendeu prematuramente a sua glória. Foi sepultado na Basílica de S. Lourenço, em 20 de Maio de 1277. A sua figura cresce à medida que os séculos decorrem e, ainda hoje, através das esquinas do Tempo, se ouvem as vozes de Dante, da Bacon e mesmo de Afonso X, de Castela, a enaltecer a memória de Pedro Julião (ou Pedro Hispano, ou Papa João XXI), tido como o maior cientista português da Idade Média.