andar de Cila para Caribdis

De Cila para Caribdes, de Herodes para Pilatos, de Seca em Meca, de um lado para outro, do caco para o caquinho, são semelhantes no conceito: estar ou ficar em completa desorientação e apuro, em aflitiva expectação, no sufoco que é a imprevisibilidade do futuro mais imediato.
Isso não obsta que, de uma para outra das enunciações não existam alguns pontos de diferença ou de caracterização que as tornem singulares.
Provavelmente por esta ser a elocução menos conhecida, umas quantas linhas que lhe dê algum aclaramento.
Em 1654, o Padre António Vieira, em S. Luís do Maranhão, pregava o seu Sermão (de Santo António aos peixes), dizendo: Quantos, na nau Sensualidade, que sempre navega com cerração, sem sol de dia, nem estrelas de noite, enganados do canto das sereias e deixando-se levar da corrente, se iriam perder cegamente, ou em Cila, ou em Caríbdis.
A Sensualidade a que referia o Padre António Vieira era o quadro mitológico da consagração ao deleite e à lascívia: Ulisses (ou Odisseu), herói de Ítaca, sábio das artimanhas, de Tróia a todas as guerras por acabar, símbolo do regresso, resiste estoicamente ao canto das sereias, amarrando-se ao mastro do seu barco, vogando e fugindo das ciladas mortais ou das tentações humanas, de Cila para Caribdes, de um lado para o outro, tal como qualquer humano, ele o seu deus mais semelhante.
Na sua epopeia, sagaz, destemido e habilidoso não deixe de assumir a sua própria contradição de deus humano transfigurado, sujeito à suspeição e manha do frágil fio de Penélope apesar da derrota de Circe ou Calipso.
A narrativa toma para si aspectos curiosos das contradições do tempo e das épocas como que a declamar a evidência do desafio que são as ondas revoltas da Vida, por este ou aquele lado, como se disso tratasse Cila e Caribdis.
(ver Andar de Seca em Meca)

 

 

 

 

(quem não anda nem a casa chega)