gato-pingado

gato-pingadoUsualmente a adjectivação gato-pingado refere assim os que tratam das formalidades gerais de um funeral. Curiosamente, no seu sentido inicial, a expressão pretende, de modo depreciativo, referir uma inferioridade, numérica ou relacionada, no contexto de qualquer acto.
A origem estará, provavelmente, numa remota tortura japonesa que consistia em fazer pingar óleo a ferver sobre pessoas ou animais, neste último caso especialmente gatos. De tal violência era a tortura que, segundo alguns escritos, os suplícios tinham sempre uma reduzida assistência, tal era a grandeza da crueldade.
Daí que, então, a expressão gatospingados passou a indicar uma pequena assistência distanciada, sem entusiasmo ou ligação com determinado evento.
Assim, em síntese, poder-se-á encontrar alguma complementaridade nestas asserções, não acha?…
(ver gato escaldado de…)

 

 

 

(com má gente haja muita terra de permeio)

a Marquesa de Távora

(23 de Janeiro de 1759)
250 anos

(…) à volta do tablado postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva.
Havia uma escada que subia para o patíbulo. A Marquesa apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de cinquenta minutos. Entretanto, aqui e ali, martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita, com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos.
Trajava de cetim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes.
Receberam-na três algozes no topo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o maço de ferro que havia de matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas com que lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostraram, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada e pediu que a matassem depressa.
O algoz tirou-lhe a capa e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa, que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas e não podia compor o vestido, que caíra mal. Ergueu-se, e com movimento do pé concertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço –não me descomponhas– disse ela, e inclinou a cabeça, que lhe foi decepada pela nuca, dum só golpe. (…)

Camilo Castelo Branco