andar na gandaia

Andar na gandaia significa vadiar, mandriar, viver ao Deus-dará, vagabundear, ser ocioso (entre outras coisas e actividades que não parecem, mas são…). Adolfo Coelho, na sua obra Gíria do Século XVIII, diz que em Lisboa, andar à gandaia é propriamente revolver os lodos do Tejo, na baixa-mar, para apanhar algum objecto aproveitável que por lá possa aparecer. Ainda, outrossim, andar à gandaia era, naquele tempo, exercer a profissão de trapeiro. Acrescente-se que o gandaieiro ia de manhã à Praça da Figueira, onde surripiava tudo o que podia, contentando-se, não poucas vezes, com fruta quase podre que apanhava do chão. Dali seguia para o mercado da Ribeira Nova à procura de algum peixe que lhe davam por esmola ou, então, que conseguia apanhar por processos mais esconsos…
Camilo, na Brasileira de Prazins, emprega a expressão, dando a gandaia o sentido de vadiagem: ‘O Nunes dizia-lhe da Póvoa que andava por lá miserável, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo de feijões e o tratava como um cão vadio‘. Escreve, agora na Corja: ‘Na verdade, o padre Justino, tinha rabugices que excediam o déspota dum cabrilista faccioso. O rebanho andava na gandaia; e se não fosse o coadjutor, não havia enterros, nem casamentos, nem baptizados na freguesia’. Camilo ainda usa os derivados gandaíce e gandaieiro, em duas outras obras: ‘Um destes desbragados ousou chamar gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe um assalto ao chapéu’, na Queda de um Anjo. ‘Os gandaieiros da freguesia começaram a dizer que o boneco narigudo era o retrato da Senhora Joana Ribeiro’, nas Vinte Horas de Liteira. Correia Garção também usa o termo gandaieiro, no Teatro Novo: ‘Deste cano real te saco, qual saca o gandaieiro um prego torto de entre os chinelos velhos da enxurrada’. Em Subsídios para um Dicionário Completo, vê-se que o nosso gandaia, provavelmente deriva do castelhano gandaia, de gandir, comer. A expressão andar a la gandaia, significa hacer una vida holgazana y vagabunda, ou, correr la gandaia.’
Mas há quem lhe dê por étimo o árabe gandur, que significa peralta, bonifrate. Ora, janota, penetra, chico-esperto, papo-seco, bandalho, badameco, safado, desavergonhado, patife, que são sinónimos, isso, sabemos hoje, há muitos. E andam (cada vez mais…) na gandaia!
(ver deus-dará)

 

 

 

 

(há sempre uns que são alpinistas enquanto outros são degraus)