ter a Casa dos Bicos

A Praticamente esquecida, ao contrário do que parece sugerir, a expressão ter a Casa dos Bicos significava, ironicamente, a posse de uma grande fortuna. Dizia-se também no mesmo tom, não se perca a Casa dos Bicos.
Segundo uma velha lenda, a Casa dos Bicos, que ainda existe, ali para os lados da Ribeira Velha de Lisboa, teria outrora engastados magníficos brilhantes em cada um dos vértices das pirâmides que eriçam toda a fachada. No entanto, esta casa mandada construir no primeiro quartel do século XVI por Brás de Albuquerque, filho do conquistador da Índia, apenas imitava a Casa de los Picos, de Segóvia, ou o Palazzo dei Diamanti, de Ferrara, que o seu proprietário tinha visto aquando viajava por Itália. Com o conhecido Cunhal das Bolas, do Bairro Alto, sucedeu o mesmo, visto que, segundo uma definição de Vilhena Barbosa, a imaginação do povo costuma fantasiar origens celebrinas aos edifícios cuja estrutura ou símbolos não sejam de fácil explicação.
Curioso verificar que em Cantuby, uma província brasileira nas cercanias do Rio de Janeiro, também existe uma casa chamada dos Bicos, que foi pertença de uma família muito poderosa, no reinado de D. João VI. Desta, no entanto, pouco ou quase nada se sabe, para além do nome de quem a tinha mandado edificar: D. Maria Renalse Recoralta Reconquesia Perininqua de Godões Campeão Catarolo. Provavelmente, nome com tanta verosimilhança como o dizer-se que o Palácio do Cunhal das Bolas foi construído por um judeu, muito rico, que quisera figurar pomos de oiro no cunhal do seu palácio. Uma invenção como a dos diamantes da Casa dos Bicos.
Certo, certo, é que tanto o Palácio do Cunhal das Bolas, como a Casa dos Bicos, foram feitos com os dinheiros fáceis vindos das Conquistas…

 

 

 

 

 

(casa em que caibas, vinha quanta podes, roupa quanta vistas, terra quanta avistas)

17 comentários sobre “ter a Casa dos Bicos

  1. Sophiamar 12 Julho, 2008 / 08:59

    Passei para dizer-te que a tua escrita faz falta na blogosfera. Para quando um novo post?
    Aguardo!

  2. Pepe Luigi 6 Julho, 2008 / 00:09

    Verdadeiramente útil este tipo de informação cultural. Agradeço pela parte que me toca pelo facto de ter compartilhado connosco o seu saber.
    Um abraço

  3. elvira carvalho 5 Julho, 2008 / 23:53

    Passei. Deixo um abraço e um bom fim de semana

  4. José Brandão 30 Junho, 2008 / 12:42

    Um prazer esta costumada leitura, meu caro. Mesmo sabendo que ‘bicos’ também há sem ser nas casas!
    Um grande abraço
    J.Brandão

  5. bettips 25 Junho, 2008 / 18:31

    Gratíssima sabedoria, a que nos passas! Sempre houve esta tendência nossa para gastar o dinheiro fácil…!
    Bjs

  6. Bichodeconta 25 Junho, 2008 / 12:42

    Sempre aprendo alguma coisa ao passar e parar neste espaço que tanto me agrada.. Um abraço, ell..
    Boa viagem.. Africa merece ,,,

  7. M. 22 Junho, 2008 / 09:48

    Como é que sabes tanta coisa?!

  8. Frioleiras 20 Junho, 2008 / 23:42

    o que aprendo,
    sempre,
    contigo………………….

  9. elvira carvalho 20 Junho, 2008 / 23:40

    Conheço a casa dos bicos e mais de uma vez, perguntei a mim mesma, o que é que levaria a que alguém construisse semelhante casa. Fiquei agora esclarecida.
    Bom fim de semana
    Um abraço

  10. Sophiamar 20 Junho, 2008 / 19:48

    E assim se vai tomando conhecimento da história.
    Bom fim de semana!
    Beijinhos

  11. Carla 20 Junho, 2008 / 13:20

    …bela forma de contar “história”
    bom fim de semana
    beijos

  12. Paula Crespo 18 Junho, 2008 / 23:01

    Gostei muito deste post sobre a Casa dos Bicos e o Palácio do Cunhal das Bolas. É divertido, também, para além de ter aprendido várias coisas. Mesmo! 🙂

  13. APC 18 Junho, 2008 / 01:27

    Passava-lhe à frente sempre que me dava para fazer a pé o percurso do Rossio a Santa Apolónia, onde estudei (apanhando ali a R. da [antiga] Alfândega, que leva à do Tabaco).
    É Alfama, e por isso ali tens restaurantes onde ainda se vai comendo como dantes. O espaço em frente costuma estar ocupado por uma esplanada feita de turistas, e o largo que ali começa é de arraial por esta altura.
    Por curiosidade: a casa dos Bicos foi, outrora, local de comércio de bacalhau!
    Gostei de me ter cruzado contigo no caminho! 🙂

  14. São 17 Junho, 2008 / 16:11

    Não sabia da lenda, mas conheço a Casa dos Bicos, em Lisboa.
    Tudo de bom.

  15. Sophiamar 16 Junho, 2008 / 22:50

    O teu blog é um dos mais interessantes da blogosfera. Escreves de forma clara e , simultaneamente, concisa o que não é tarefa fácil. Deve-se isso à tua vasta cultura, ao conhecimento que tens da História e ao gosto com que escreves.
    Os edifícios de que nos falas hoje, de séculos bem diferentes, século XVI , o primeiro, XIX, o segundo, ostentam ambos a riqueza, o luxo, a abundância de algumas classes sociais em tempos tão difíceis para o povo.
    Bem hajas, amigo!
    Beijinho

  16. Justine 16 Junho, 2008 / 21:24

    Novidades para mim, as informações que dás sobre estas duas construçõe.
    Sempre muito interessante e original, a tua perspectiva da História.
    E agora como dantes, continua a usar-se em proveito próprio as riquezas que são de todos…tão pouco que isto mudou!
    Abraço, e estou contente que tenhas voltado ao “activo”:))

  17. david santos 16 Junho, 2008 / 20:21

    Além de alguns dados históricos, também tens aqui uma linda imagem.
    Parabéns.

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