tiraninho…


Fernando Pessoa (e os seus outros Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares) morre em 30 de Novembro de 1935. Tinha 47 anos quando escreveu ‘I know not what tomorrow will bring’. Aquilino Ribeiro, a propósito, diria ‘apenas nasceu o dia’.
O seu último ano de vida (1935) talvez tenha sido o mais turbulento. Escreve no Diário de Lisboa que se proclama oposto à Igreja de Roma e revela o seu interesse pelo ocultismo. Interessa-se pelas cartas astrológicas e faz horóscopos às centenas. A aproximação com a Rosa-Cruz e a Maçonaria, especialmente a última, vira-o às avessas com a Ditadura Militar que já elogiara algumas vezes. Salazar não gosta e ele, amofinado, responde-lhe com um dos seus mais verrinosos poemas…

‘António Oliveira Salazar.
T
rês nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sobe ao céu
Fica só o azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
E a liberdade,
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho,
Está na Guiné,
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
Mas ninguém sabe porquê.
Mas, enfim, é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé:
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até café.