todos para Angola, já!

Ao fim de vinte e seis dias, acaba no estuário do Tejo a odisseia de Henrique Galvão com a sua operação Dulcineia: o paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação, atraca ao Cais de Alcântara. Do rocambolesco episódio sobressai o amargo de boca que ficou ao Governo Português: quando se soube da captura do navio pelos revolucionários liderados por Henrique Galvão, em consonância com o general Humberto Delgado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros pediu auxílio aos governos americano e inglês para recuperar o paquete.
Apesar de pronta disponibilidade de ambos os países, rapidamente os americanos perceberam que os assaltantes se assumiam como membros da Oposição à ditadura de Oliveira Salazar. Kennedy, que havia sido investido há poucos dias e que lançara ao mundo uma mensagem de esperança numa nova era, de imediato mostrou alguma relutância para com as teses colonialistas da política portuguesa: os navios foram mandados regressar, depois do almirante da esquadra americana ter subido a bordo do Santa Maria, no dia 31 de Janeiro, e ter conversado longamente com Henrique Galvão. Logo a seguir, o novo presidente brasileiro, Jânio Quadros, concede todas as garantias de asilo político aos revoltosos. A forma como se desenrolou, internacionalmente, todo este episódio, desagradou profundamente ao Governo Português.
A 13 de Abril, Salazar diria à Nação a célebre frase que ficaria na História como o início da resposta do regime às sublevações que tinham começado em Angola: ‘Andar rapidamente e em força, é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade’.
A máquina da propaganda do regime assanha-se na exaltação e massificação dos conceitos pluricontinentais e plurisseculares da Pátria, de Deus e da Fé, contra os tiranos e salteadores que cobiçam o nosso solo sagrado: Angola é nossa!
Os embarques de contingentes militares sucedem-se, uns após outros, enquanto em Casablanca, os movimentos de libertação criam a Conferência das Organizações Nacionais das Colónias Portuguesas. A guerra, assim, estender-se-ia, também, à Guiné e a Moçambique.
Uma geração inteira iria ser sacrificada pela Pátria em defesa do Império. Com excepções. Alguns escapam (como os ratos...) aos maciços embarques: fogem, arranjam pés chatos, olhos vesgos, joanetes, acobertam-se ao cargo de sustento da mãe, do pai, do filho ou da prima, metem cunhas, agitam as sebentas do curso que está por acabar, tudo serve… Mais tarde, todos, diriam que os nortearam esclarecidas razões políticas ou pias objecções de consciência!
Enquanto passam 13 anos e quase nove mil mortos.
Ainda não se fez o luto. Nem a História.